O apagão dos modelos Claude Mythos e Fable 5 da Anthropic não caiu do céu. Antes de a Casa Branca puxar do cartão vermelho e impor controlos de exportação à empresa, houve um alvo muito concreto: a sul‑coreana SK Telecom.
Segundo fontes citadas pela Wired, a administração Trump começou por pressionar a Anthropic a revogar o acesso da SK Telecom ao Mythos, preocupada com alegadas ligações da operadora à China. Este episódio é o novo capítulo de uma história que já tínhamos acompanhado quando a Casa Branca começou a temer um desvio chinês da tecnologia Mythos e que explodiu depois com o braço‑de‑ferro que levou a Anthropic a desligar os modelos para toda a gente fora dos EUA.
O contexto é sensível. O Claude Mythos é descrito como especialmente apto a identificar vulnerabilidades de software e, portanto, com grande potencial ofensivo em cibersegurança. A Anthropic tinha limitado o acesso inicial através do Project Glasswing, um programa de pré‑visualização reservado a cerca de 150 entidades “de confiança”. Neste grupo entrou a SK Telecom, maior operadora móvel da Coreia do Sul e investidor de peso da própria Anthropic, com uma injecção de 100 milhões de dólares em 2023 e uma parceria para criar modelos de IA específicos para telecomunicações.
Para Washington, o problema não é tanto a SK Telecom isolada, mas o guarda‑chuva onde vive. A empresa faz parte do SK Group, conglomerado com interesses profundos na China, em áreas como semicondutores e energia. A ironia é que, no papel, a SK Telecom quase não depende da China: em 2024 reportou cerca de 1,9 milhões de dólares de receitas no país, sete funcionários e actividade sobretudo ligada a investimentos. A Casa Branca não olha para as contas do último ano, olha para duas décadas de presença no sector chinês das telecomunicações e para a possibilidade, por remota que seja, de a IA mais sensível dos EUA acabar a reforçar infraestruturas de um rival estratégico.
Perante o pedido da Casa Branca, a Anthropic cortou de imediato o acesso da SK Telecom ao Mythos. Nessa altura não houve ameaça explícita de controlos de exportação. O rastilho veio depois, quando equipas da Amazon sinalizaram falhas de segurança em Fable 5, a versão “blindada” do Mythos aberta ao público, alegando ser possível contornar algumas barreiras e tocar nas capacidades mais perigosas do modelo. A empresa e peritos externos contestam que estas fragilidades sejam únicas do Claude, mas a combinação de um parceiro sul‑coreano com histórico na China e alertas sobre ciber‑capacidades foi suficiente para a administração concluir que não podia confiar na Anthropic como guardiã desta tecnologia.
Daqui saiu a ordem: Mythos e Fable 5 só para cidadãos norte‑americanos. Nada de estrangeiros, nem imigrantes dentro dos EUA. A Anthropic recusou montar um sistema de filtragem por nacionalidade, que seria um pesadelo técnico e legal, e preferiu desligar os modelos para todos fora do perímetro definido por Washington. Como já detalhámos nos bastidores do braço‑de‑ferro entre Trump e a Anthropic e na crónica sobre como Fable 5 se tornou arma política, a disputa não é técnica, é geopolítica pura, com a SK Telecom a servir de argumento conveniente num jogo que já estava montado.
Para quem vê de fora, o caso expõe um ponto desconfortável: não interessa só o que o teu modelo faz, interessa a quem tens prometido cafés, equity e acesso privilegiado. A SK Telecom diz que “não tem laços com a China” e que as acusações carecem de factos verificados. Mas nesta fase a narrativa pesa mais do que o balanço anual. E qualquer empresa europeia ou asiática que esteja a meter dinheiro nos laboratórios de IA de topo nos EUA devia tomar nota: quando a tecnologia começa a cheirar a armamento estratégico, a lista de convidados fecha‑se brutalmente.
Fonte: Wired
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