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Administração Trump quer esconder poluição dos centros de dados

A EPA quer acabar com a obrigação federal de avisar o público sobre novas fontes “menores” de poluição. Na prática, abre a porta a centros de dados aprovados em silêncio.

Administração Trump quer esconder poluição dos centros de dados

Enquanto bairros inteiros nos EUA começam a acordar para o impacto dos centros de dados de IA no barulho, na água e na conta da luz, a administração Trump está a tentar apagar mais uma linha de defesa: o direito a saber o que vai ser construído ao lado de casa. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA, a famosa EPA, quer deitar fora uma regra federal que obriga a avisar o público e a abrir consultas quando certas instalações industriais pedem licença para emitir poluentes para o ar.

O alvo é um processo que existe desde os anos 70, o New Source Review (Nova Revisão de Fontes), que se aplica a aterros, fábricas de papel, expansões de centrais elétricas e, cada vez mais, a novos centros de dados e às centrais a gás que os alimentam. É o mesmo tipo de licenças que tem estado no centro da contestação a megaprojetos de IA, como documentámos quando os centros de dados de IA começaram a acender uma nova vaga de centrais a gás nos EUA. Sem consulta pública, esse debate passa a ser opcional.

Em julho, a EPA anunciou que quer eliminar a exigência federal de participação pública para um grande conjunto de fontes “menores” de poluição e atirar a responsabilidade para os estados e municípios. Cada autoridade local passaria a decidir se avisa ou não os residentes sobre novas chaminés a aparecer no mapa. Grupos ambientais e juristas lembram que o ar não pára na fronteira do condado: a regulação do ar é federal precisamente porque o fumo de um estado cai no jardim do vizinho do lado.

Do lado da administração, o discurso é o esperado. Menos “burocracia”, menos “trâmites desnecessários”, mais rapidez a construir. “As autoridades estaduais e locais mais próximas das questões e do público devem tomar o máximo possível das decisões sobre licenciamento, não Washington”, diz o administrador da EPA, Lee Zeldin. Na prática, o efeito é outro: permite que data centers e outras instalações avancem sem escrutínio, até “os bulldozers estarem lá fora”, como resume Keri Powell, advogada sénior do Southern Environmental Law Center.

A categoria de fonte “menor” é, por si, questionável. A EPA descreve-a como instalações com emissões relativamente baixas e impacto ambiental limitado. Na realidade, engloba projetos com consequências bem tangíveis para quem vive ao lado. O megacentro Colossus 1 da xAI, no Tennessee, que a empresa de Elon Musk vendeu como “o sistema de treino de IA mais poderoso até agora”, pediu precisamente um destes licenciamentos “menores”. Vários centros de dados de IA e as respetivas centrais a gás estão a usar esta via mais discreta, enquanto comunidades tentam descobrir tarde demais o que lhes foi pousar no quintal, como se viu também nos casos em que o consumo de água disparou em silêncio.

Para Portugal e para a Europa, isto não é apenas folclore regulatório americano. A febre global dos centros de dados de IA procura sempre o caminho de menor resistência, seja no Egipto com a Huawei, seja em estados americanos amigos da indústria, seja em países europeus com fiscalização mais frouxa. Quando Washington decide que o público passa a ser um detalhe opcional no licenciamento de novas fontes de poluição, está a enviar um sinal claro ao resto da indústria: o ruído político vale a pena, porque a recompensa é construir mais rápido e com menos olhos em cima. Cabe à União Europeia e a países como Portugal perceber a mensagem e decidir se querem ser o próximo sítio onde a consulta pública se transforma num obstáculo descartável.

Fonte: The Verge

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