Centros de dados nos EUA triplicam consumo de água em dez anos
A febre da IA disparou a construção de centros de dados e o consumo de água. O pior é que os dados são incompletos e jogam a favor do greenwashing do sector.
A febre da IA disparou a construção de centros de dados e o consumo de água. O pior é que os dados são incompletos e jogam a favor do greenwashing do sector.
Os centros de dados nos Estados Unidos usaram em 2023 cerca de 17 mil milhões de galões de água, o equivalente a mais de 64 mil milhões de litros. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso norte-americano (CRS, na sigla original), isto é três vezes mais do que em 2014. E estes números ainda apanham só o arranque da febre da IA generativa, não o pico.
O relatório do CRS, publicado pela Biblioteca do Congresso, olha para a forma como as grandes fazendas de servidores consomem água, que opções tecnológicas existem para reduzir esse consumo e qual é hoje o papel do governo federal. A conclusão central é desconfortável: Washington não tem uma avaliação sistemática do uso de água pelo sector. Os dados estão dispersos entre estados, municípios e operadores, muitas vezes presos em contratos que limitam a divulgação. Para quem quer escrutinar o impacto real de empresas como Google, Microsoft ou AWS, isto é perfeito, mas por razões erradas.
O documento sublinha que a construção de centros de dados disparou depois do lançamento do ChatGPT no final de 2022. A procura por modelos generativos e LLMs empurrou a indústria para hardware especializado de IA, mais denso e muito mais faminto de energia. Mais energia significa mais calor e, por extensão, mais necessidade de arrefecimento. Como já se viu noutros estudos sobre o impacto da IA em recursos físicos, da água aos semicondutores para automóveis, a narrativa do digital imaterial não bate certo com a realidade física da infraestrutura.
Curiosamente, o relatório nota que o consumo direto de água nos centros de dados, para arrefecimento no próprio edifício, representa apenas cerca de 2 por cento do consumo total de água dos EUA. O peso verdadeiramente brutal vem do lado indireto, a água usada na produção de eletricidade que alimenta estes centros. Um estudo citado pelo CRS aponta para mais de 80 por cento do consumo hídrico associado a centros de dados estar oculto na geração de energia. Discutir apenas os litros que entram por condutas do edifício é, no fundo, uma forma educada de desviar a conversa.
Nos sistemas de arrefecimento, o trade-off é conhecido: soluções baseadas em evaporação consomem muita água, mas são mais eficientes em energia; sistemas a ar ou outras alternativas “sem água” gastam menos litros, mas puxam mais pela fatura elétrica. A escolha depende do clima, da escala e do preço relativo de água e eletricidade em cada sítio. O problema é que, com dados fragmentados e contratos opacos, esta escolha é feita quase sempre na perspetiva do operador, não da comunidade que partilha o mesmo aquífero. Quando se sabe que cerca de 97 por cento da água usada por centros de dados nos EUA vem de sistemas municipais de água potável, a conversa deixa de ser técnica, passa a ser política.
Para quem vê isto da Europa, não é um tema distante. A UE já anda a tentar pôr travões ao boom de centros de dados por causa da pressão sobre água e energia, e Portugal anda a acenar a “hiperescalares” com isenções e terrenos baratos. Sem transparência séria sobre consumos, continuamos a negociar no escuro, enquanto o marketing pinta tudo de verde. Entre centros de dados de IA a secarem cadeias industriais e uma infraestrutura que bebe água de redes municipais, a pergunta já não é se a IA tem impacto ambiental. É quantos litros e quantos megawatts estamos dispostos a sacrificar para o alimentar.
Fonte: The Register
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