Em menos de um ano, a potência de novas centrais a gás planeadas só para alimentar centros de dados nos EUA passou de 97 para mais de 189 gigawatts. Os números são da Global Energy Monitor e cortam a direito a narrativa verde de Big Tech: por trás dos grandes modelos de IA e dos anúncios de neutralidade carbónica está uma expansão agressiva de produção fóssil dedicada.
A explicação é pouco romântica. As grandes tecnológicas estão a apostar em centrais privadas, os chamados projetos behind-the-meter, para fugir a anos de espera por ligações à rede e a debates públicos sobre quem paga a fatura. Construir a própria central permite ligar um megacentro de dados em tempo recorde e manter as contas de eletricidade dos consumidores fora da conversa. A administração Trump abraçou a ideia, com um compromisso voluntário assinado por Microsoft, Meta, Google e OpenAI, governadores republicanos e algumas das maiores elétricas do país.
O custo climático desta pressa é óbvio. Além de serem fósseis, muitas destas centrais estão a ser desenhadas com turbinas menos eficientes, o que aumenta as emissões por quilowatt-hora. Há casos em que uma única central para centros de dados tem licença para emitir mais gases com efeito de estufa por ano do que vários países de pequena e média dimensão. A história parece familiar a quem tem seguido como os centros de dados já triplicaram o consumo de água nos EUA ou como a fome de chips da IA está a secar outros sectores: promessa digital à frente, custos físicos escondidos no rodapé.
Enquanto isso, a comparação com a China é desconfortável para Washington. Apesar de ser o maior importador mundial de gás e de continuar a usar esse combustível em sectores como fertilizantes e plásticos, a expansão de centros de dados de IA chineses está a encaixar-se sobretudo em zonas rurais com excesso de produção renovável, em particular solar e hídrica. Segundo Kyle Chan, investigador da Brookings Institution, a aposta em reforçar a rede com renováveis é deliberada, pensada como estratégia de independência energética. Traduzindo: o rival que os EUA apontam diariamente no “corrida à IA” está a queimar menos gás para treinar modelos.
Nem todos os 189 gigawatts identificados vão sair do papel. Há riscos de financiamento, oposição local, moratórias, limitações na oferta de turbinas. Mas se uma fatia grande avançar, o resultado é mais do que um pico temporário: são emissões bloqueadas durante décadas, num momento em que cada nova central fóssil criada de raiz é uma escolha política clara, não uma inevitabilidade técnica. Para a Europa, que continua a vender a ideia de transição energética enquanto corteja centros de dados, o recado é direto. Ou se desenham regras para que esta infraestrutura cresça colada a renováveis e redes decentes, ou acabamos a importar o mesmo modelo, com selo de IA na capa e mais CO₂ na atmosfera.
A indústria fala cada vez mais em cabos submarinos e fibra oca para reduzir latências e otimizar tráfego, como na promessa de que novas fibras vão redesenhar o mapa dos centros de dados. O problema é mais básico: de onde vem a energia para alimentar tudo isto. Nos EUA, a resposta, por agora, é demasiado simples, e cheira a gás.
Fonte: Wired
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