IA

Um condado inglês está a dizer não à Palantir na saúde pública

Greater Manchester recusa a plataforma de dados da Palantir para o NHS e insiste num sistema próprio. A decisão expõe a tensão europeia entre soberania tecnológica e dependência de software americano.

Um condado inglês está a dizer não à Palantir na saúde pública

O governo britânico tem seis meses para decidir se mantém ou rasga um contrato de mais de 400 milhões de dólares (~370 milhões de euros) entre o Serviço Nacional de Saúde (NHS) e a Palantir. No meio da pressão política e mediática, há uma região a remar contra a maré: Greater Manchester. O conselho de saúde local recusou a plataforma de dados federada da empresa americana e insiste que o seu sistema caseiro é melhor, mais maduro e, sobretudo, mais confiável para clínicos e cidadãos.

Em 2023, Londres encomendou à Palantir um “federated data platform” (FDP) para engolir e organizar o caos de dados de saúde espalhados pelo país. O discurso oficial é familiar: menos tempos de espera, internamentos mais curtos, melhor uso de blocos operatórios. A promessa técnica é razoável, o problema é a política e a reputação. A mesma Palantir que vende ferramentas de vigilância para a guerra e para a repressão na imigração nos EUA é agora a guardiã dos dados clínicos de milhões de pessoas. Depois de anos em que já a vimos aproximar-se de infraestruturas críticas europeias, como contámos em detalhe em como Musk fragilizou o controlo aéreo e abriu a porta à Palantir, a confiança não nasce do nada.

Greater Manchester diz que não precisa da Palantir. Passou quase uma década a construir uma plataforma própria, afinada com os seus hospitais e centros de saúde. Matt Hennessey, responsável de dados da região, resume o ponto: mesmo um sistema tecnicamente forte falha se quem o usa não confia nele. Para ele, adoptar o FDP seria “um passo atrás”. A frase é mais do que orgulho local, é um ataque direto ao modelo centralizador do governo britânico e ao mito de que há sempre ganhos se se entregar a infraestrutura crítica a um fornecedor privado gigante, ainda por cima estrangeiro.

A resistência de Manchester alimenta hoje um debate nacional: o contrato com a Palantir pode ser terminado antecipadamente em fevereiro de 2027, em vez de se arrastar até 2031. Do lado do governo e dos defensores do FDP, o argumento é a eficiência e a interoperabilidade. Ferramentas desenvolvidas numa região podem ser “lift and shift” para outra, dizem ex-responsáveis do NHS, o que facilita a partilha de soluções. É o tipo de narrativa que soa irresistível em relatórios de consultoria, mas costuma ser menos glamorosa quando acerta na parede da realidade clínica, com hospitais sub-financiados e equipas de TI reduzidas.

O contexto europeu pesa. Governos em Espanha, França e Alemanha estão a reavaliar contratos com a Palantir e a procurar alternativas locais para reduzir a dependência de tecnologia americana em áreas sensíveis. Em Portugal, onde o SNS continua preso a sistemas fragmentados e a projectos falhados de informatização, o caso de Manchester deveria ser lido com atenção. Não como convite a reinventar a roda em cada Administração Regional de Saúde, mas como lembrete de que soberania tecnológica não é só uma palavra bonita em conferências de Bruxelas, é uma escolha concreta: quem escreve o código que manda nos nossos hospitais, quem o controla, quem o pode desligar.

Greater Manchester conseguiu, com tempo e investimento consistente, montar algo que considera melhor que o pacote Palantir. Isto dá munições a quem, em Londres e em Bruxelas, defende uma via mais paciente, com plataformas públicas ou europeias em vez de outsourcing em bloco para empresas ligadas a defesa e vigilância. Se o governo britânico ignorar este sinal e renovar o contrato até 2031, a mensagem para o resto da Europa é clara: a dependência não é acidente, é opção política.

Fonte: Wired

Newsletter

Os artigos que importam, duas vezes por semana.

Terça e sexta, cinco minutos de leitura. Sem spam, cancelas quando quiseres.

Comentários · 0