CIêNCIA

Como Musk fragilizou o controlo aéreo e abriu a porta à Palantir

O departamento de eficiência de Elon Musk falhou a modernização do controlo de tráfego aéreo nos EUA. No vazio deixado, a Palantir de Peter Thiel posiciona-se para vender a solução.

Como Musk fragilizou o controlo aéreo e abriu a porta à Palantir

No dia 6 de agosto, o centro de controlo de tráfego aéreo de Minneapolis perdeu radar e comunicações durante cerca de duas horas. Mais de 1.100 voos foram afetados num espaço aéreo que cobre nove estados norte‑americanos. Dois dias antes, o helicóptero presidencial Marine One levantou voo e o aviso obrigatório à torre de Reagan National falhou. Um avião comercial foi autorizado a descolar e aproximou‑se mais do que a distância de segurança da aeronave do presidente. Não houve desastre, mas houve sorte.

Estes incidentes chegam depois de promessas públicas de “upgrades rápidos de segurança” ao sistema de controlo de tráfego aéreo, feitas por Elon Musk quando o secretário dos Transportes de Trump o convidou a “arrumar” a Administração Federal de Aviação (FAA). Musk ganhou um brinquedo novo em Washington, o Department of Government Efficiency, com a sigla DOGE a piscar o olho ao seu meme favorito. Na prática, o que entregou foi mais demolição do que reforma.

O DOGE não ajudou a FAA a comprar nem a implementar sistemas de nova geração. Pelo contrário. Musk atacou publicamente a Verizon, acusando a operadora de controlar as comunicações da FAA, mas também falhou em colocar a Starlink como alternativa viável. Em vez de fibra e redundância, tivemos ruído em X. O grande feito da agência foi o despedimento de 400 funcionários da FAA, incluindo técnicos de manutenção em 18 centros de controlo aéreo. Menos pessoas a manter equipamentos obsoletos, mais falhas em cadeia. O resultado é visível na sucessão de avarias em Dallas, Denver, Houston e nas evacuações por fumos estranhos em torres como Atlanta ou Newark.

A ironia é óbvia. O discurso era de cortar gordura e modernizar com tecnologia de ponta. A prática foi cortar músculo crítico e deixar um sistema envelhecido ainda mais vulnerável. É o mesmo padrão que já vimos noutros projetos de Musk: uma mistura de promessa grandiosa, execução caótica e danos colaterais sistémicos. Quando se fala de automóveis elétricos ou foguetões, o risco é de mercado. Quando se fala de controlo de tráfego aéreo, o risco é de segurança pública. E a conta não é paga apenas pelos passageiros norte‑americanos, é paga por toda uma rede aérea global interligada, onde atrasos e reencaminhamentos nos EUA também tocam Lisboa ou Porto.

É neste cenário de fragilidade que entra a Palantir, empresa de análise de dados de Peter Thiel, velho aliado político e financeiro do trumpismo. Um sistema que falha recorrentemente é o melhor argumento de venda para quem vive de “soluções” de software e integração de dados. Musk abre crateras no terreno, Thiel aparece com a ponte dourada. Quem acompanha a pressão política e financeira à volta de Elon Musk, desde apostas como a compra do Twitter até investimentos como a entrada da Nvidia na SpaceX, reconhece a coreografia: enfraquecer estruturas públicas, depois privatizar a resposta tecnológica.

Para quem aterra em Lisboa vindo de Nova Iorque, isto pode parecer teatro distante. Não é. Portugal voa dentro de um céu digital onde as regras, os standards e muitas das tecnologias são desenhados nos EUA. Quando o regulador de lá é tratado como obstáculo descartável e substituído por contratos de software opacos, a lição para a Europa é simples: automatizar não pode ser sinónimo de abdicar do controlo público. Porque sempre que alguém “parte” o Estado em nome da eficiência, há outro à espera para faturar na reconstrução.

Fonte: The Verge

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