CIêNCIA

SpaceX vai gastar 92 mil milhões de euros num novo Starbase na Louisiana

Segundo espaçoporto gigante da SpaceX nasce num antigo terreno da Exxon no Golfo do México. Um investimento ao nível de uma gigante industrial, com dúvidas ambientais e políticas à mistura.

SpaceX vai gastar 92 mil milhões de euros num novo Starbase na Louisiana

Noventa e dois mil milhões de euros. Aproximadamente o valor bolsista de uma grande empresa industrial europeia, concentrado num único espaçoporto privado. É este o cheque que a SpaceX diz querer passar para construir um segundo Starbase na paróquia de Vermilion, Louisiana, em terrenos que já foram da Exxon, mesmo na costa do Golfo.

O plano é tudo menos tímido. A nova base será um complexo “autossuficiente”, com produção própria de propelente, geração de energia, porto de águas profundas, unidades de processamento de veículos e até aeroporto. De repente percebe-se melhor porque é que a empresa anda a contratar traders de gás natural e porque precisava de um IPO gigantesco. Em junho, a SpaceX levantou 75 mil milhões de dólares na maior entrada em bolsa da história, e um projeto desta escala ajuda a explicar para onde vai boa parte desse dinheiro. Para quem segue os testes da Starship e os impactos não planeados dos lançamentos no Texas, que a NASA tem escrutinado ao milímetro, isto não é apenas mais um local de apoio. É duplicar a aposta no foguetão gigante, com todas as consequências regulatórias e ambientais que vêm no pacote.

O calendário oficial também é ambicioso. A construção está prevista arrancar em 2027, com um primeiro lançamento de Starship a partir da Louisiana em 2029. As autoridades de desenvolvimento económico do estado são mais frias e falam em operações iniciais só em 2030. A localização faz sentido técnico: linhas de voo sobre o oceano, acesso marítimo profundo para levar e trazer secções de foguetões por barcaça e uma base industrial habituada a infraestruturas pesadas ligadas a energia.

É aqui que entra a política local. Para a Louisiana, uma região costeira com economia dependente de petróleo e gás e literalmente a desaparecer para o mar devido à erosão, a SpaceX promete 3.000 empregos diretos em dez anos, com salário médio anual a rondar os 92.600 dólares, e mais de 30.000 postos de trabalho na fase de construção, no pico. São números gordos para vender incentivos fiscais e apoios públicos. E, como quase sempre neste tipo de anúncio, são projeções a dez anos, não contratos com cláusula de penalização. Convém lê-los com a mesma desconfiança com que se lê um prospeto de IPO.

No plano ambiental, a ironia é demasiado perfeita para ser ignorada. Substituir um ativo fóssil da Exxon por um complexo espacial centrado numa nave que queima metano é uma sucessão simbólica de época. A SpaceX diz que vai trabalhar com agências estaduais e federais para reforçar o plano costeiro da Louisiana e mitigar impactos na vida selvagem. É a gramática certa, mas falta o número: quanto terreno vai ser restaurado, quanto vai ser perdido, que limites de ruído, de detritos, de emissões serão impostos. A experiência no Texas não inspira confiança cega, com detritos espalhados por reservas naturais e processos regulatórios repetidos.

Do ponto de vista europeu, e português em particular, este segundo Starbase é mais do que uma curiosidade americana. Consolida ainda mais a posição da SpaceX como infraestrutura crítica para qualquer país que queira pôr algo em órbita, sejam satélites, missões científicas como o telescópio Roman ou constelações privadas. Cada novo porto espacial privado controlado por uma empresa listada reforça o desequilíbrio entre quem tem foguetões reutilizáveis a escalar, como os norte-americanos e cada vez mais a China com os seus próprios veículos reutilizáveis, e quem continua a depender de lançadores caros e pouco frequentes. A Louisiana ganha empregos. Musk ganha uma peça estratégica. O resto do mundo ganha mais dependência de uma cotada que está a transformar o espaço numa infraestrutura proprietária.

Fonte: The Next Web

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