Um Falcon 9 da SpaceX voltou a deixar marca, desta vez não num gráfico de receitas mas na superfície da Lua. A NASA usou a sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) para fotografar a cratera provocada pelo impacto do estágio superior de um Falcon 9 que, em 2025, levou duas missões privadas rumo ao nosso satélite natural.
O contexto é simples, e pouco glamoroso: as empresas Firefly e ispace contrataram um Falcon 9 para lançar, respetivamente, a missão Blue Ghost Mission 1 e a missão RESILIENCE em direção à Lua. Uma correu razoavelmente bem, a outra falhou o nome que escolheu. Mas a trajetória escolhida deixou o segundo estágio do Falcon 9 em rota de colisão com a Lua. Em agosto de 2026 a peça de lixo espacial cumpriu o destino balístico e foi embater no solo lunar.
A NASA já tinha identificado o local do impacto, tal como a agência espacial sul-coreana, mas agora afinou as medidas. A partir de cerca de 96 km de altitude, com a LRO a viajar a cerca de 1.600 m/s, foram obtidas quatro imagens do local. Especialistas em crateras que analisaram os dados estimam um buraco com cerca de 18 m de diâmetro e 3 m de profundidade. Nada apocalíptico à escala lunar, mas suficiente para lembrar que a órbita da Terra e o espaço cislunar começam a parecer um ferro-velho bem organizado.
As imagens mostram duas zonas distintas: uma área mais escura, rugosa, que foi lentamente modificada ao longo de milhões de anos por vento solar, raios cósmicos galácticos e micro-meteoritos, e uma mancha mais clara, com “raios” a partir da cratera, composta por material mais fresco arrancado de camadas abaixo da superfície. Em termos científicos, cada impacto destes é mais um ponto de dados sobre a mecânica de crateras. Em termos de política espacial, é mais um lembrete de que a Lua já não é só um alvo científico, é palco de missões privadas, interesses comerciais e, no limite, disputas de quem fura o quê, onde e com que responsabilidade. Basta recordar a corrida declarada por vários países ao polo sul lunar, com a China a posicionar-se para liderar essa frente.
Enquanto isso, noutra frente do império Musk, a Starship usada no 13.º voo de teste acabou rebocada para um ponto improvável do mapa: a ilha Christmas, território australiano perdido no oceano Índico, mais conhecida pela migração anual de caranguejos vermelhos do que por ser doca seca de foguetões. A SpaceX explicou na rede X que optou por levar o veículo até lá para aproveitar águas calmas e facilitar análises pós-voo em mar aberto, antes de o tentar devolver à Starbase, no Texas.
O resultado é uma imagem quase surreal: um megafoguetão experimental a boiar tranquilamente junto a uma ilha tropical enquanto engenheiros tomam notas e fotógrafos locais registam o momento. É o contraste típico da nova era espacial, em que um só operador privado tanto abre crateras de 18 m na Lua como estaciona naves gigantes em recantos remotos do planeta. E em que cada buraco no rególito conta tanto para a ciência como para o currículo político e financeiro de empresas como a SpaceX, que já atrai investimentos de gigantes como a Nvidia e olha para a Lua não como um destino distante, mas como mais uma peça do seu portefólio orbital.
Fonte: The Register
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