Há anos que se fala de lentes de contacto inteligentes, mas quase sempre em contexto de laboratório e patentes vagas. A Xpanceo, uma empresa de deep-tech sediada no Dubai, garante agora que está mais perto de pôr a ideia no olho de pessoas reais: segundo a CNET, a empresa tem 28 protótipos funcionais de lentes com IA integradas e planeia mostrá-las ao público no MWC Barcelona de 2027, com ambição de chegar ao mercado por volta de 2030.
A promessa é agressiva: uma lente com ecrã, biossensores, microbateria, antena e componentes de suporte, a funcionar como uma espécie de assistente de IA colado à córnea. Nas contas da Xpanceo, estas lentes serviriam para aceder a apps e dados como num smartphone, fazer verificação de identidade instantânea, usar realidade aumentada e até apoiar missões espaciais, aviação e desportos de alta velocidade quando emparelhadas com um capacete dedicado. Pelo meio, ainda funcionariam como wearable de saúde, a ler informação no fluido lacrimal.
O truque para enfiar meio computador no olho é não o enfiar de todo. Quem explica isto à CNET são os fundadores Roman Axelrod e Valentyn Volkov: a maior parte do processamento e da energia vive num dispositivo externo, preso ao lado da cabeça, com câmara, auricular e microfone. Este módulo faz de bateria, de “cérebro” e de carregador sem fios para as lentes, mantendo uma ligação contínua através de antenas desenhadas à medida. Em teoria, resolve-se assim o problema de autonomia e aquecimento no olho. Na prática, troca-se um gadget invisível por um novo acessório à vista de todos, a meio caminho entre prótese médica e óculos de IA.
Na saúde, o argumento é mais sólido. Como lembra o CNET, pulseiras de fitness e anéis inteligentes já mudaram a forma como se olha para monitorização, mas estão limitados ao que conseguem medir pela pele. Uma lente consegue outra coisa: o fluido lacrimal é, nas palavras de Volkov, “sangue filtrado”. Contém níveis de glicose, proteínas, electrólitos, hormonas de stress e outros biomarcadores. Em teoria, seria possível acompanhar diabetes sem picadas, seguir hormonas ao longo do dia, ou medir a pressão intra-ocular para vigiar glaucoma e outras doenças dos olhos. Tudo isto sem seringas nem idas constantes ao laboratório, desde que a calibração seja boa o suficiente para não deitar diagnósticos ao ar.
A parte futurista do plano é a recomendação em tempo real: a equipa diz à CNET que quer que a lente consiga sugerir hábitos mais saudáveis com base nos dados que lê, num registo próximo do que alguns óculos de IA e wearables já tentam fazer no ouvido e no pulso. A diferença aqui é o grau de intimidade. Monitorizar sangue filtrado e pressão dentro do olho é bem mais intrusivo do que contar passos, e levanta logo duas questões pesadas: privacidade de dados médicos e segurança física. Uma falha de software num relógio pode ser chata. Numa lente colada à córnea, pode ser perigosa.
Convém ainda lembrar o histórico pouco brilhante de hardware “para a cara”. Dos Google Glass aos actuais óculos com câmara ou realidade aumentada, a tecnologia costuma esbarrar em problemas básicos: conforto prolongado, autonomia miserável, limitações de processamento num corpo minúsculo e, não menos importante, a reacção social a alguém com sensores e câmaras pendurados na cabeça. Lentes inteligentes empurram tudo isto para o limite. Se a Xpanceo conseguir mesmo pôr um ecrã legível, sensores fiáveis e IA útil dentro de algo que 140 milhões de utilizadores habituais de lentes aceitariam usar horas seguidas, terá resolvido um dos puzzles mais difíceis da electrónica de consumo. Até lá, continua a ser um protótipo ambicioso e uma boa história de feira de telecomunicações, mais próxima de promessa de palco do que de receita na farmácia.
Fonte: CNET
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