CIêNCIA

Telescópio Roman da NASA quer mapear a matéria escura do cosmos

O sucessor wide‑angle do Hubble arranca já em agosto. Vai caçar matéria e energia escuras e poderá descobrir perto de 200 mil novos planetas.

Telescópio Roman da NASA quer mapear a matéria escura do cosmos

A NASA está prestes a lançar o telescópio espacial que mais se aproxima de um “Hubble em modo grande angular”. Chama-se Nancy Grace Roman Space Telescope e, se tudo correr bem, sai de Cabo Canaveral a partir de 30 de agosto. Tem a resolução do Hubble, mas olha para um pedaço de céu cerca de 100 vezes maior de cada vez. Não é um detalhe técnico, é uma mudança na escala do que se consegue perguntar ao universo.

O alvo principal são duas entidades que dominam o cosmos e que continuamos a não perceber: matéria escura, que responde por cerca de 85 por cento de toda a matéria, e energia escura, que empurra a expansão acelerada do universo. Roman vai mapear enormes regiões do céu e medir pequenas distorções na luz de galáxias distantes, um efeito chamado lente gravitacional fraca. A partir daí, os cosmólogos podem reconstruir como é que a matéria escura está distribuída e como é que a energia escura tem guiado a evolução das maiores estruturas cósmicas.

Julie McEnery, cientista de projecto da missão, descreve o observatório como uma “máquina de descoberta”. Não é exagero promocional: a missão primária de cinco anos foi desenhada para estatística em massa, não para aquela imagem fotogénica isolada. Em contraste com o James Webb, optimizado para apontar a um alvo muito específico numa área minúscula do céu, o Roman é o varredor de grandes campos. É a diferença entre usar um teleobjectiva para ver uma janela num prédio e subir a um helicóptero para perceber o bairro inteiro.

Essa abordagem tem outra consequência: exoplanetas, em quantidade industrial. Hoje existem cerca de 6.300 planetas confirmados fora do Sistema Solar. As previsões para o Roman falam em até 200 mil novos mundos. A maioria será detectada por trânsitos, quando um planeta passa à frente da sua estrela e baixa ligeiramente o brilho. Mas a parte mais ambiciosa está num método menos intuitivo e muito mais potente para planetas distantes da sua estrela: microlente gravitacional. Quando duas estrelas se alinham, a da frente funciona como uma lente, amplificando a luz da de trás. Se houver um planeta em órbita, o seu peso altera subtilmente esse padrão de amplificação. Roman é sensível o suficiente para ver esse piscar de olhos gravitacional, até para planetas com menos massa do que Mercúrio.

É aqui que a missão se distancia da caça a gémeos da Terra e entra numa fase mais crua da estatística: perceber que tipos de sistemas planetários são mesmo comuns na galáxia, incluindo mundos gelados longe das suas estrelas, praticamente invisíveis para métodos clássicos. Para um público habituado a headlines de “planeta potencialmente habitável”, isto vai soar menos glamoroso, mas é o tipo de catálogo que muda modelos, não só apresentações em PowerPoint. A mesma agência que há pouco decidiu deixar o telescópio Swift cair à Terra prefere agora apostar fichas num observatório que olha para o quadro geral, uma escolha que diz muito sobre prioridades científicas da NASA depois de anos de apertos orçamentais.

Na prática, Roman e James Webb vão funcionar em tandem: um varre e encontra padrões, o outro aproxima e disseca casos interessantes. O telescópio foi baptizado em honra da primeira astrónoma-chefe da NASA, Nancy Grace Roman, que empurrou o próprio Hubble para fora do papel. Há uma certa simetria histórica aqui. Se cumprir o que promete, este sucessor de olhar largo pode fazer à cosmologia de precisão o que o Hubble fez à astrofísica dos anos 90, com uma diferença essencial: agora já sabemos que o universo é estranho. A questão é quão mais estranho ainda vai ficar quando o mapa deixar de ter tantos espaços em branco.

Fonte: Wired

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