SpaceX entra em bolsa com a maior IPO da história
A empresa de Elon Musk estreia-se no Nasdaq com uma avaliação astronómica e muito mais apetite por ações do que oferta. Para o pequeno investidor, o cenário é bem menos glamoroso.
A empresa de Elon Musk estreia-se no Nasdaq com uma avaliação astronómica e muito mais apetite por ações do que oferta. Para o pequeno investidor, o cenário é bem menos glamoroso.
A SpaceX é oficialmente uma empresa cotada em bolsa. Elon Musk levou a sua companhia de foguetões para o Nasdaq, naquela que já é apresentada como a maior oferta pública inicial de sempre. As ações começaram a negociar a 135 dólares por título, um preço definido em modo “toma ou larga” para o mercado institucional. Quem chegar pela porta do lado de fora, o pequeno investidor, é que provavelmente pagará bem mais.
O objetivo da oferta é angariar cerca de 75 mil milhões de dólares, sob o símbolo SPCX, o que bate todos os recordes anteriores de IPOs. A operação consolida um império pouco comum: Musk, que já controla a Tesla, passa a mandar em duas empresas cotadas de valor trilionário. Com 85 por cento dos direitos de voto na SpaceX, caminha para ser o primeiro trilionário do planeta, num arranjo de governo societário que tem mais de monarca do que de gestor escrutinado.
Do lado de quem tenta comprar, o entusiasmo roça a febre. Segundo a Bloomberg, a procura terá sido mais de quatro vezes superior ao número de ações disponíveis. É o reflexo de uma história de crescimento difícil de ignorar: a SpaceX assegura cerca de 82 por cento de todos os lançamentos espaciais nos EUA e quase metade do mercado global comercial. A unidade Starlink, internet por satélite, já passou os 10 milhões de subscritores e funciona como vaca leiteira de margens gordas, algo que Wall Street compreende melhor do que foguetões reutilizáveis.
O problema é o preço a que essa história está a ser vendida. A SpaceX foi avaliada em 1,25 biliões de dólares depois de absorver a xAI, a empresa de IA de Musk que também ficou com o controlo da X.com, o antigo Twitter. Ou seja, quem compra SpaceX compra também uma amálgama de redes sociais, satélites, IA e espaço, tudo empacotado a um múltiplo histórico. Musk diz que pagou caro para juntar as peças, mas, na prática, transferiu risco e complexidade para os novos acionistas.
O prospeto S-1, entregue em maio ao regulador norte-americano, lê-se quase como um folheto de ficção científica: mais lançamentos, data centers em órbita para alimentar IA, uma colónia humana permanente em Marte. Ambição nunca faltou a Musk, rigor financeiro já é outra conversa. A própria empresa reconhece no documento que o fundador é um fator de risco. Não apenas pelo estilo errático, mas porque o emaranhado de negócios cruzados é difícil de digerir: a Tesla detém quase 19 milhões de ações da SpaceX, a SpaceX compra Cybertrucks e Megapacks à Tesla, aluga escritórios à Boring Company, e por aí fora.
Por baixo da camada de hype, as contas são menos glamorosas. A SpaceX perdeu cerca de 4,9 mil milhões de dólares em 2025 e queimou mais alguns milhares de milhões só no primeiro trimestre de 2026, em grande parte em betão, aço e chips para mega centros de dados de IA. Investidores institucionais entram porque têm escala e apetite para este tipo de roleta cósmica. Para o investidor em Lisboa que sonha comprar “um bocadinho de Marte” através da corretora, esta IPO parece mais desenho animado de Musk do que porta de entrada racional para o espaço.
Fonte: The Verge
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