CIêNCIA

Sonda New Horizons acorda sozinha após 321 dias a hibernar

A veterana da visita a Plutão voltou a ligar-se, a mais de 9,5 mil milhões de quilómetros da Terra. Está em modo poupança à espera de um novo alvo no Cinturão de Kuiper.

Sonda New Horizons acorda sozinha após 321 dias a hibernar

Há PCs que não acordam depois de uma sesta ao almoço. A New Horizons acabou de acordar sozinha depois de 321 dias de hibernação, a 64 unidades astronómicas da Terra, no limite do sistema solar que interessa às contas do orçamento da NASA.

A agência tinha enviado no ano passado a sequência de comandos: hibernar a 7 de agosto de 2025, acordar em julho de 2026. A verificação fez-se a 23 de julho deste ano. A sonda respondeu, como combinado, sem intervenção de engenheiros sonolentos em frente a consolas. Para uma nave lançada em 2006, com electrónica da viragem do século, a fiabilidade continua a ser o truque mais impressionante.

A New Horizons cumpriu a “missão principal” há muito. Em 2015 deu-nos a primeira passagem por Plutão, com imagens que reabriram o debate sobre se o ex-planeta merece recuperar o título, e em 2019 passou por Arrokoth, um objeto do Cinturão de Kuiper que parecia duas bolas de neve coladas. Desde essa visita já percorreu mais 23 unidades astronómicas, mais do que a distância entre o Sol e Úrano. Hoje está a cerca de 9,5 mil milhões de quilómetros de nós, com um sinal de rádio que demora mais de nove horas a cá chegar.

Quando entra em hibernação, a nave quase desliga a casa toda. Sistemas não essenciais são apagados, não há comandos enviados, não há dados descarregados. O objetivo é óbvio: poupar cada watt do gerador termoelétrico e cada hora de vida de componentes que não podem ser reparados. A NASA está confortável com este silêncio porque, neste momento, não há outro alvo viável no Cinturão de Kuiper ao alcance da trajetória da sonda. Em vez de forçar manobras caroíssimas em combustível que já não existe, a agência prefere esticá-la até onde for possível.

No papel, a missão estendida pede à New Horizons que funcione como estação meteorológica de luxo do espaço profundo. Mede como o vento solar e o campo magnético do Sol se comportam nos confins do sistema, mapeia poeira, partículas energéticas, tudo o que ajuda a perceber melhor a fronteira com o meio interestelar. É ciência de fundo, sem glamour de selfie em Marte, e é também política: cada bit que chegar de tão longe é argumento para defender orçamento em Washington. Não por acaso, a mesma NASA que anda à procura de voluntários para um ano fechado numa falsa missão a Marte insiste em manter viva uma nave solitária a caminho da noite interestelar.

Se não aparecer mais nenhum alvo interessante, a New Horizons deve sair do Cinturão de Kuiper em 2028 ou 2029 e continuar viagem rumo ao exterior do sistema solar. Só duas sondas fizeram isso em condições: Voyager 1 e Voyager 2, que já atravessaram o heliosheath e o heliopausa, a fronteira em que o empurrão do vento solar se equilibra com o gás interestelar. A New Horizons dificilmente terá a mesma longevidade heroica, mas mesmo que pare antes dessa linha invisível, está a desenhar o mapa que as próximas gerações vão usar. Convém que, desta vez, as contas políticas aguentem mais que as baterias.

Fonte: The Register

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