Blue Origin prepara ronda privada de 10 mil milhões para enfrentar a SpaceX
Jeff Bezos abre finalmente a porta a capital externo. A Blue Origin precisa de dinheiro, pressa e resultados num sector em que a SpaceX já joga noutra liga.
Jeff Bezos abre finalmente a porta a capital externo. A Blue Origin precisa de dinheiro, pressa e resultados num sector em que a SpaceX já joga noutra liga.
A Blue Origin vai, pela primeira vez, levantar capital privado. Segundo o boletim DealBook do New York Times, a empresa de Jeff Bezos está a preparar uma ronda de 10 mil milhões de dólares, para uma valorização na ordem dos 130 mil milhões, com a gestora Coatue a liderar 4 mil milhões, outros 4 mil milhões de investidores institucionais e o próprio Bezos a meter mais 2 mil milhões.
Para uma empresa que viveu quase toda a vida à conta do bolso do fundador, isto é uma mudança séria. A Blue Origin nasceu em 2000 com a ambição de ser referência em foguetões de grande porte, módulos lunares e até megaconstelações de satélites, a competir em lançamento, telecomunicações e centros de dados em órbita. Na prática, passou anos a queimar dinheiro de Bezos enquanto a rival SpaceX fazia o trabalho duro: contratos com a NASA, acordos comerciais, rondas privadas sucessivas e, este ano, uma oferta pública inicial que lhe rendeu 85 mil milhões de dólares e uma avaliação perto dos 2 biliões de dólares.
A diferença de escala é brutal. Mesmo com 10 mil milhões frescos, a Blue Origin continua vários patamares abaixo de uma SpaceX que já tem foguetões a voar rotineiramente, cápsulas tripuladas e uma constelação Starlink a imprimir dinheiro. Pior, chega a esta ronda com o principal activo em crise. O New Glenn, o foguetão que devia ser a espinha dorsal de todas as ambições da casa, explodiu num ensaio estático na Florida e destruiu a única plataforma de lançamento. Há poucas semanas escrevemos sobre como a empresa ainda não sabia ao certo porque o New Glenn explodiu. Agora precisa de explicar a mesma história a investidores que não são o homem mais rico do mundo.
Bezos e o CEO Dave Limp têm acelerado a limpeza e reconstrução do sítio de lançamento. O fundador chegou a prometer regressar a voos do New Glenn antes do fim do ano. A maioria dos analistas fala em algo mais próximo dos 12 meses. Para uma empresa cuja mascote é uma tartaruga e cujo lema é “passo a passo, ferozmente”, a súbita urgência não é filosófica, é financeira. No meio de negociações para uma ronda gigante, a pior mensagem que se pode passar é ter o único foguetão sério parado, sem data credível de regresso.
Ao mesmo tempo, a lista de promessas continua a crescer. A Blue Origin quer usar o New Glenn para levar carga pesada e, um dia, humanos à Lua, tanto para a NASA como para clientes privados. Do lado comercial, promete concorrência nos preços aos Falcon e Starship da SpaceX. E empurrou para cima da mesa duas megaconstelações próprias: a TeraWave, para ligações de alta velocidade em órbitas baixa e média para clientes empresariais, e o Project Sunrise, uma constelação potencial de até 51.600 satélites em órbitas síncronas com o Sol entre 500 e 1.800 km de altitude. Cada uma destas linhas de negócio implica dezenas, se não centenas, de milhares de milhões em investimento ao longo de anos.
Fontes citadas pela Ars Technica dizem que Bezos, com 62 anos, está cansado de ser o único a financiar esta visão. É compreensível. Mas ao abrir a porta ao capital externo, a Blue Origin também troca o conforto do “hobby caro do bilionário” pela pressão regular de resultados, margens e liquidez para os colaboradores, algo que a SpaceX já domina com stock options agressivas. No xadrez espacial, esta ronda não chega para igualar o adversário. Serve para outra coisa: provar se a Blue Origin é finalmente uma empresa de espaço a sério ou se continua só a viver de promessas muito bem financiadas.
Fonte: Ars Technica
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