Nova lei em New Jersey pode travar robotaxis da Tesla
Um projeto de lei em New Jersey exige lidar e radar em carros autónomos. Na prática, deixa de fora a aposta só com câmaras da Tesla e envia um recado à indústria.
Um projeto de lei em New Jersey exige lidar e radar em carros autónomos. Na prática, deixa de fora a aposta só com câmaras da Tesla e envia um recado à indústria.
New Jersey está prestes a fazer algo que os reguladores costumam evitar: meter-se diretamente no hardware. Um projeto de lei estadual quer que qualquer carro totalmente autónomo na estrada use câmaras mais pelo menos dois tipos adicionais de sensores, tipicamente lidar e radar. Traduzindo, a famosa visão só com câmaras da Tesla fica automaticamente fora do jogo, a não ser que Elon Musk mude de ideias e de peças.
A proposta, que deve ir a votos ainda este ano, criaria um programa-piloto de três anos para carros sem condutor em New Jersey. Durante esse período, as empresas teriam de cumprir vários requisitos: múltiplos sistemas de perceção, registo de determinados acidentes, autorização estadual antes de operar serviços comerciais totalmente sem condutor e, antes disso, pelo menos 50.000 milhas de testes supervisionados no estado sem incidentes graves. É burocracia, sim, mas também é o Estado a dizer à indústria como deve construir os carros.
O principal rosto da lei é Andrew Zwicker, senador democrata e físico no Princeton Plasma Physics Laboratory. Depois de andar num robotáxi da Waymo em Phoenix, ficou convencido de que os veículos autónomos podem mesmo mudar a mobilidade: menos mortes na estrada, mais acessibilidade para quem não pode conduzir, potencial para redesenhar o transporte urbano. Mas, como ele próprio admite, fazer isto no estado mais densamente povoado dos EUA não é a mesma coisa que testar no deserto do Arizona.
Zwicker diz que isto não é uma cruzada anti-Tesla, é “pro-segurança de New Jersey”. O argumento central é simples: neste momento não há provas sólidas de que um único tipo de sensor, por muito IA que tenha por cima, consiga lidar com todas as situações que um condutor humano enfrenta. Lidar e radar dão redundância e uma leitura mais robusta do ambiente, especialmente em más condições de visibilidade, onde as câmaras falham. Tesla aposta no contrário e já gastou milhares de milhões nesse dogma, com um histórico de incidentes que não ajuda a narrativa de infalibilidade, como temos visto também em outros episódios menos lisonjeiros à volta da marca.
Até agora, o debate sobre câmaras versus lidar vivia sobretudo entre engenheiros e departamentos de marketing. Com New Jersey e um projeto quase idêntico na vizinha Nova Iorque, passa a viver também nos códigos legais. Isto importa para quem está em Portugal? Indiretamente, sim. A UE tem sido mais conservadora na autorização de condução autónoma, mas ainda não desceu ao detalhe de obrigar a sensores específicos. Se estas leis americanas forem vistas como um bom compromisso entre risco e segurança, não seria estranho ver reguladores europeus a copiar a receita, talvez adaptada à realidade do Regulamento Geral de Segurança que já começa a impor assistências obrigatórias.
No fundo, New Jersey está a escolher um lado num debate técnico que ainda não está fechado. Define por lei que “mais sensores” é a definição de prudência, mesmo que isso favoreça modelos como os da Waymo em detrimento da visão radical da Tesla. Há quem veja aqui protecionismo tecnológico, há quem veja apenas bom senso perante uma indústria que gosta de testar primeiro e pedir desculpa depois. Para já, o recado é claro: se quiseres pôr um robotáxi a andar sozinho nas ruas mais apertadas de New Jersey, traz redundância de fábrica ou volta para a prancheta.
Fonte: The Verge
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