Novo catálogo de vírus aponta os maiores riscos para a próxima pandemia
Equipa de Edimburgo mapeou todos os vírus de RNA que infetam humanos e marcou quais têm mais probabilidade de causar a próxima grande crise de saúde pública.
Equipa de Edimburgo mapeou todos os vírus de RNA que infetam humanos e marcou quais têm mais probabilidade de causar a próxima grande crise de saúde pública.
Num ano “normal” descobrem-se dois ou três vírus novos em humanos. A maioria entra em meia dúzia de artigos obscuros e nunca mais se ouve falar deles. Mas, de vez em quando, aparece um HIV ou um SARS-CoV-2 e muda-se o século. A pergunta óbvia é: dá para perceber, no momento em que um vírus é descoberto, se estamos perante mais um rodapé ou a próxima COVID?
Uma equipa da Universidade de Edimburgo decidiu atacar o problema com menos pânico e mais dados. Pegou em todos os vírus de RNA conhecidos que conseguem infetar humanos, em princípio milhares de espécies mas, na prática, apenas 239 relevantes, e construiu um catálogo público que tenta responder a uma coisa muito simples: quais são os que mais provavelmente vão dar problemas sérios de saúde pública.
O ponto de partida é quase desmancha-prazeres para a ficção científica. Para cerca de dois terços destes vírus, um humano infetado é um beco sem saída. A infeção vem de um animal e fica por aí. São os chamados vírus zoonóticos. A raiva é o exemplo clássico: transmite-se de cães ou outros mamíferos para pessoas, provoca dezenas de milhares de mortes por ano, mas praticamente não se espalha de humano para humano. E, apesar de décadas de oportunidades, nunca “aprendeu” a fazê-lo. O mesmo medo paira hoje sobre a gripe das aves, mas o artigo lembra um facto incómodo para o alarmismo fácil: não há um único caso documentado de um vírus de RNA que tenha passado de zoonótico quase puro a eficazmente humano.
O foco do catálogo está noutro sítio. O perigo real vem dos vírus que já hoje se espalham entre pessoas. Alguns são velhos conhecidos como sarampo, papeira ou rubéola, que em tempos remotos também terão saltado de animais mas já ninguém os confunde com zoonoses. Outros são mais recentes ou discretos, mas partilham a mesma característica estrutural: têm um número reprodutivo básico (o famoso R) suficientemente perto do limiar em que um surto à partida limitado pode tornar-se cadeia sustentada de transmissão. O caso de estudo óbvio é o Zaire ebolavirus, que deixou de ser uma curiosidade de aldeias remotas quando chegou às cidades da África Ocidental em 2014.
É aqui que a base de dados ganha dentes. Os autores mantêm uma lista curta de “vírus de surtos” com histórico de pequenas epidemias que, apesar de contidas, mostram potencial: o próprio Zaire ebolavirus, os vírus Chikungunya, Zika, Oropouche e o mpox, entre outros. Quase todos, depois de entrarem nessa lista, acabaram por protagonizar crises sanitárias regionais ou globais. Mais recentemente, nomes que quase ninguém fora da saúde pública conhecia, como o Andes hantavirus associado a um surto num cruzeiro, ou o Bundibugyo ebolavirus atualmente a circular em África central, também lá estão marcados.
O catálogo não é bola de cristal, é uma folha de cálculo agressiva. Não prevê qual será o próximo vírus a atravessar fronteiras, mas dá às equipas de vigilância algo melhor do que instinto e manchetes: um conjunto de candidatos prioritários para monitorizar, estudar e, em teoria, ter vacinas ou terapêuticas em preparação. Para países como Portugal, que tendem a viver estes temas como algo distante até ao dia em que deixam de o ser, a mensagem é clara. A próxima pandemia não virá de um vírus completamente desconhecido, saído do nada. Está, muito provavelmente, algures numa lista como esta. Ignorá-la é uma escolha política, não uma inevitabilidade científica.
Fonte: Ars Technica
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