Sam Altman volta a falar de singularidade e mete 2026 no calendário
O CEO da OpenAI voltou a prever um salto radical com a IA a curto prazo. A obsessão com a singularidade é cada vez mais marketing, menos ciência.
O CEO da OpenAI voltou a prever um salto radical com a IA a curto prazo. A obsessão com a singularidade é cada vez mais marketing, menos ciência.
Sam Altman voltou ao tema favorito de quem adora slides com gráficos exponenciais: a singularidade. Numa conversa recente citada pelo Business Insider, o CEO da OpenAI sugeriu que o salto para uma inteligência artificial geral, ou algo perto disso, pode surgir “mais depressa do que as pessoas pensam”. O ano de 2026 começa a aparecer demasiado nas frases de quem tem muito a ganhar com esse medo e essa expectativa.
Altman fala há anos de AGI, de singularidade e de uma mudança profunda na relação entre humanos e máquinas. A diferença é que agora o diz com a OpenAI avaliada em dezenas de milhares de milhões, dependente de GPUs da Nvidia ao ponto de condicionar cadeias de produção inteiras, e com concorrentes como Anthropic a disputar o mesmo imaginário. Quando um CEO em modo estrela mediática aponta para a próxima curva da montanha-russa, está a falar tanto para investidores como para engenheiros.
Do ponto de vista técnico, o discurso continua vago. Não há definição rigorosa de AGI, não há métrica consensual e os modelos actuais mostram tanto momentos de brilho como falhas básicas. A IA acertar em exames padronizados e rebentar benchmarks não significa que compreenda o mundo. A singularidade aqui é mais narrativa do que equação. E essa narrativa vende. Vende acções, vende chips, vende contratos de cloud. Basta olhar para os 200 mil milhões de dólares que gigantes como Samsung e Amazon já alinharam em infraestruturas de IA e em apostas de longo prazo.
Altman posiciona a OpenAI como o actor inevitável deste futuro acelerado. A proximidade com a Microsoft garante dinheiro e distribuição, mas também cria dependências regulatórias, sobretudo na Europa, onde a legislação sobre IA e os processos antitrust andam finalmente a acordar. Quando o CEO fala de singularidade, está a tentar manter a narrativa de que esta corrida é demasiado importante para ser travada pela burocracia. A velha táctica do “se não formos nós, vai ser outro” com verniz de futurologia.
Entretanto, a realidade é mais prosaica. As empresas usam ChatGPT e afins para automatizar tarefas moderadamente aborrecidas, despedem equipas inteiras e culpam a IA, mas os números não acompanham o drama. A maior parte dos ganhos vem de cortes clássicos, não de máquinas omniscientes. A AGI de powerpoint serve sobretudo para justificar investimentos obscenos em hardware e manter uma aura de urgência quase religiosa à volta da área.
Altman pode acreditar genuinamente que 2026 marca o início de algo qualitativamente diferente. O problema não é a ambição, é a assimetria: alguns poucos decidem o ritmo e recolhem os lucros, enquanto o risco é socializado. Nessa equação, a palavra singularidade funciona melhor como slogan do que como previsão científica. Para quem está deste lado do Atlântico, o que interessa não é tanto se a AGI aparece em 2026 ou 2036, mas se teremos tempo, regulação e capacidade de escolha suficientes antes de a próxima profecia de palco se transformar em infraestrutura inevitável.
Fonte: Business Insider
Comentários · 0