Empresas culpam a IA pelos despedimentos, mas os números não batem certo
Microsoft, Oracle, Google, Monday e outras estão a invocar a IA para justificar milhares de despedimentos. O mercado e os balanços contam uma história bem menos tecnológica.
Microsoft, Oracle, Google, Monday e outras estão a invocar a IA para justificar milhares de despedimentos. O mercado e os balanços contam uma história bem menos tecnológica.
A IA já é o bode expiatório oficial de 2026. A mais recente a apontar nessa direção é a Monday.com, que vai despedir cerca de 20% da força de trabalho, pouco mais de 600 pessoas, enquanto fala de “modelo mais enxuto” e “estratégia de crescimento impulsionada por IA”. Nos papéis entregues ao regulador dos EUA, os despedimentos aparecem como reestruturação. Na mensagem interna, o cofundador Eran Zinman garante que não é “para reduzir custos ou substituir pessoas por IA”. Quando uma empresa precisa desta ginástica semântica, o problema não é o modelo de linguagem.
O contexto é mais amplo. De acordo com análise recente do Financial Times, as tecnológicas norte-americanas já cortaram quase 140.000 empregos desde o início do ano. Amazon, Oracle, Meta e Microsoft sozinhas somam quase 50.000 desses cortes, ao mesmo tempo que canalizam centenas de milhares de milhões de dólares para centros de dados de IA, numa corrida onde já vimos a Amazon gastar valores semelhantes, enquanto cortava equipas de AGI. A narrativa oficial fala em foco, eficiência, equipas ágeis. A tradução em linguagem simples é outra: menos pessoas, mais capex.
A lista é longa e variada. A Microsoft cortou cerca de 4.800 postos, 2,1% da força global, com impacto forte na divisão Xbox, três anos depois de comprar a Activision Blizzard por 75 mil milhões de dólares. Diz que esses lugares “não estão a ser substituídos por IA”, mas admite que a IA está a mudar a forma como o trabalho é feito. A Oracle foi mais frontal: revelou que reduziu a força de trabalho em 21.000 pessoas, 13% em doze meses, e escreveu num relatório oficial que a adoção de tecnologias de IA já resultou, e pode continuar a resultar, em reduções de pessoal. Pelo menos aqui a honestidade não ficou só no PowerPoint.
No mundo do software de desenvolvimento, a GitLab despediu cerca de 350 pessoas, 14% da equipa, para financiar infraestrutura de IA e lidar com o aumento de tráfego de cargas de trabalho “agentes”. Fala num “rebuild geracional” da plataforma, saída de 22 países e camadas de gestão achatadas. Tudo isto com receitas trimestrais a crescer 23% ano contra ano. Não é um caso de empresa em apuros financeiros, é uma escolha deliberada de onde cortar para sustentar a nova fé na IA. Em paralelo, gigantes como a Google têm feito cortes silenciosos, sobretudo na Google Cloud e em equipas de cibersegurança, com estimativas entre 1.500 e mais de 3.000 engenheiros dispensados, sem nunca assumir um número global.
Há um detalhe que estraga a narrativa das empresas: o FT conclui que as cotadas que citaram a IA como fator para despedimentos ficaram, em média, quase 10% abaixo do Nasdaq nos 30 dias seguintes ao anúncio. Ou seja, o mercado não compra totalmente o argumento de que despedir hoje é investir num futuro de IA amanhã. E isto num momento em que outros pedaços do mesmo sector, como Anthropic e OpenAI, contratam agressivamente e absorvem parte do talento expulso. Em empresas como a Meta e a IBM, os números mostram uma realocação interna significativa de pessoas para funções de IA, o que desmonta a ideia de fatalidade tecnológica: há escolhas políticas de gestão, não inevitabilidade algorítmica.
Para quem trabalha em tecnologia em Portugal, a mensagem importa por duas razões. Primeiro, porque estes padrões acabam importados, seja para centros de desenvolvimento europeus, seja via decisões tomadas em sede fora da UE. Segundo, porque a IA está a ser usada como rebranding de velhas agendas de redução de custos. Há investimento brutal em chips e data centers, como se vê nos acordos de centenas de milhar de milhões para infraestrutura de IA, mas a conta continua a ser paga em salários. Quando a IA aparece como justificação oficial de despedimentos em massa, convém olhar menos para o modelo de linguagem e mais para o modelo de negócio.
Fonte: TechCrunch
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