IA

Professores de programação rendem-se à IA, mas mudam a regra do jogo

Estudo global mostra que cursos de informática estão a largar o “copia este código” e a virar-se para compreender, defender e auditar código em plena era de ChatGPT e Copilot.

Professores de programação rendem-se à IA, mas mudam a regra do jogo

Os grandes trabalhos de programação que faziam tropeçar caloiros de informática hoje caem em segundos com um prompt no ChatGPT ou no GitHub Copilot. Um grupo de trabalho da ACM, a maior associação internacional de computação, decidiu perguntar a quem está na linha da frente o que isto está a fazer ao ensino. A resposta é clara: a IA já mexeu na forma como se aprende e, sobretudo, na forma como se avalia.

O inquérito recolheu respostas de 763 docentes de ciência de computação em 49 países, com cerca de 500 questionários quase completos analisados. Sessenta e nove por cento dizem que a IA alterou as competências necessárias para desenvolvimento de software. O maior receio não é filosófico, é prático: 87 por cento falam em dependência crescente da tecnologia, logo seguido por batota e plágio, apontados por 72 por cento. É a versão académica do que já se vê fora da escola: com IA à mão, muita gente deixa de admitir que não sabe, mas também deixa de aprender de facto, como mostrava um estudo recente sobre uso de chatbots.

No ensino, a viragem é concreta. Sessenta e quatro por cento dos docentes já mudaram a forma como leccionam, saindo do ritual de escrever tudo de raiz para focar compreensão de código, depuração e resolução de problemas. Trinta e nove respostas referem mesmo ensino explícito de uso de IA e de prompt engineering. Outros levam as ferramentas para a aula para mostrar tanto o que fazem como onde falham. A mensagem é pragmática: como disse o autor principal do relatório, Steven Gordon, o mercado de trabalho vai usar IA, o objectivo passa a ser formar pessoas que saibam programar e percebam os limites das ferramentas, não meros operadores de copiar e colar inteligente.

É na avaliação que o choque é maior. Sessenta e oito por cento já mexeram nos métodos de teste. Mais exames presenciais vigiados, mais provas em papel, mais orais e sessões de defesa de código. Trabalhos de casa contam menos, projectos com acompanhamento próximo contam mais. Alguns docentes exigem agora que os estudantes declarem o uso de IA, com registos das interacções. Em Portugal isto colide de frente com práticas instaladas em muitas licenciaturas de informática que ainda vivem de fichas para fazer em casa e testes escritos pensados numa era pré-IA.

O problema é que metade destes professores sente que anda a improvisar. Quarenta e oito por cento apontam a falta de exemplos testados de boas práticas para integrar IA nos cursos. Vinte e oito por cento admitem não ter conhecimento suficiente de IA para a incorporar, e 20 por cento dizem simplesmente não ver necessidade. Três em cada quatro querem formação sobre métodos de ensino eficazes com IA, dois terços pedem ajuda a redesenhar avaliações. Ao mesmo tempo, as regras institucionais são um mosaico: 45 por cento relatam políticas formais sobre IA, 39 por cento vivem no vazio regulamentar. Há universidades que proíbem, outras que incentivam desde que se documente o uso. Nas escolas portuguesas já se vê o mesmo padrão, entre quem tenta bloquear ferramentas e quem as empurra para dentro da sala de aula sem grande plano, como no caso em que o próprio Google dificulta o controlo da IA na pesquisa escolar.

Há ainda avisos vindos da investigação: estudos recentes, incluindo um da Anthropic, sugerem que a IA melhora notas a curto prazo mas corrói conhecimento profundo quando usada como bengala constante. É confortável delegar numa máquina a nova biblioteca Python, até ao momento em que é preciso usar a cabeça sem rede. Se o ensino de programação não se adaptar rápido, arrisca-se a produzir gerações que sabem interrogar assistentes mas não percebem o que sai do compilador. E essa factura não é paga num exame, é paga em produção, quando o bug passa da folha de teste para o sistema de pagamentos de um banco.

Fonte: The Decoder

Comentários · 0