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OMS avisa que falha na governação da IA em saúde na Europa se torna estrutural

Quase dois terços dos países já usam IA em diagnósticos. Só 8% têm estratégia específica para a governar. Lisboa foi o palco do aviso mais duro da OMS até agora.

OMS avisa que falha na governação da IA em saúde na Europa se torna estrutural

Hans Kluge, diretor regional da Organização Mundial da Saúde para a Europa, subiu ao palco em Lisboa com um número na mão: 8%. É a fatia de países da região europeia da OMS que têm uma estratégia específica para inteligência artificial em saúde. O resto anda a experimentar primeiro e a perguntar quem manda depois.

O contraste é violento. Segundo a avaliação mais abrangente que a OMS/Europa fez até agora nos seus 53 estados-membros, quase dois terços dos países já usam IA em diagnósticos clínicos e cerca de metade já lançou chatbots para doentes. Mas só um em cada 12 países escreveu regras claras sobre como é que isto deve ser governado. A tal “lacuna entre implementação e governação” que Kluge chamou o desafio definidor da IA em saúde neste momento.

Os detalhes do retrato são ainda menos simpáticos. Apenas um em cada cinco países garante formação em IA aos profissionais de saúde antes de terminarem o curso. Só um em cada quatro oferece treino estruturado depois de já estarem no serviço ativo. Menos de metade avaliou se o seu enquadramento legal aguenta estas ferramentas novas e quase 40% não têm qualquer orientação ética sobre IA em saúde. A Europa anda a regular modelos fundacionais e a falar de riscos sistémicos, mas nos hospitais continua a faltar o básico: quem é responsável quando o algoritmo se engana.

Kluge não se escondeu atrás de abstrações. Um algoritmo enviesado pode falhar um diagnóstico para um doente real, com consequências reais, lembrou. Mais grave, um profissional treinado para confiar num sistema opaco, que não pode interrogar, deixa de estar empoderado e passa a ser executante de recomendações que não compreende. Isto não é um bug de machine learning, é uma falha de governação e cultura organizacional. E casa bem com o mal-estar que muitos profissionais de saúde têm vindo a expressar perante o tsunami de ferramentas digitais que lhes caem em cima sem tempo, formação ou margem de recusa.

Importa notar que a OMS não está a tocar o alarme contra a tecnologia em si. Cerca de 98% dos estados-membros dizem que o principal motivo para adotar IA é melhorar o cuidado ao doente. Kluge apontou até para Coimbra, onde sistemas de análise automática de imagem ajudam a detetar mais rápido doenças torácicas e fraturas ósseas, reduzindo tempos de espera em cuidados primários e urgências. Há ganhos concretos hoje, não promessas vagas para 2030. O problema é que esses ganhos assentam em infraestruturas técnicas e legais que, em muitos sítios, continuam por definir, uma familiaridade para quem acompanha o desfasamento europeu entre ambição política e prática na adoção de IA em geral, daquele lado mais macro que já vimos em discussões como a pressão geopolítica em torno dos modelos fechados.

As exigências de Kluge foram diretas: estratégias nacionais para cada país que já use IA em saúde, normas de responsabilidade claras e formação séria da força de trabalho, mais coordenação internacional para não ter 53 interpretações incompatíveis de riscos semelhantes. Vindo de Lisboa, o recado é particularmente desconfortável para a Europa que gosta de se ver como campeã da regulação digital. Se continuar a instalar sistemas de IA mais depressa do que constrói a governação que os enquadra, arrisca-se a ficar presa ao pior dos dois mundos, com tecnologia crítica em produção e regras eternamente em rascunho.

Fonte: The Next Web

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