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China pode fechar modelos de IA e deixa a Europa encurralada

Pequim estuda travar o acesso estrangeiro aos seus modelos de IA mais avançados. Para uma Europa dependente de tecnologia alheia, a margem de manobra encolhe ainda mais.

China pode fechar modelos de IA e deixa a Europa encurralada

A China está a ponderar limitar o acesso estrangeiro aos seus modelos de IA (inteligência artificial) mais avançados. Não é teoria da conspiração, é diplomacia tecnológica em modo duro: o Ministério do Comércio reuniu-se em junho com Alibaba, ByteDance e a startup Z.ai para discutir como e quanto fechar a torneira, segundo a Reuters.

Em cima da mesa estão limites a sistemas de alto desempenho, tanto modelos fechados como abertos, incluindo os que ainda nem chegaram ao mercado. Uma das propostas é enquadrar o roubo ou transferência de tecnologia de IA sob a rígida lei de segurança nacional chinesa e apertar também quem pode financiar startups locais. Ou seja, não é só exportar modelos, é controlar o capital e o código. O alcance das regras ainda está em debate e pode aplicar-se apenas a modelos futuros, mas a direcção é clara: menos partilha, mais controlo.

Isto acontece precisamente quando os modelos chineses começaram a ganhar terreno global, muito por via do preço. Desde o lançamento do DeepSeek R1, soluções como Qwen da Alibaba, Doubao da ByteDance ou o GLM-5.2 da Z.ai oferecem desempenho próximo de modelos “frontier” norte-americanos a uma fracção do custo. Muitos projectos europeus, de startups a laboratórios universitários, têm usado estes modelos como alternativa barata aos serviços dos EUA. Se Pequim fechar a porta, a factura de IA na Europa sobe, ponto final.

Também não é um gesto isolado. Em abril, Pequim forçou a Meta a desfazer a compra de 2 mil milhões de dólares da Manus, uma startup fundada na China. Em junho, vieram regras mais duras para negócios no estrangeiro, tecnologia e dados, e investigações a startups que emigraram por potenciais violações de controlos de exportação. Um painel de peritos ligado ao Supremo Tribunal Popular desenhou mesmo um modelo em três níveis: ferramentas básicas open-source só com registo, tecnologias avançadas com revisão de segurança, e os modelos de fronteira reservados a uso doméstico ou nem sequer lançados.

Antes de apontar o dedo a Pequim, convém lembrar que Washington abriu o caminho. A administração Trump passou a tratar a IA como recurso estratégico militar. Em junho, forçou a Anthropic a cortar o acesso estrangeiro aos modelos mais avançados, Fable e Mythos, por receios de uso por serviços de informação rivais. Como a empresa não conseguia verificar nacionalidade em tempo real, desligou-os para toda a gente, reabrindo depois o Fable com salvaguardas extra. O Mythos, focado em cibersegurança ofensiva e defensiva, continua reservado a um pequeno círculo de entidades norte‑americanas e parceiros altamente filtrados.

É aqui que a Europa fica no meio do choque de placas. Sem gigantes próprios de IA generativa ao nível da OpenAI, Google ou mesmo das novas casas chinesas, Bruxelas tentou equilibrar o jogo com regulação e agora com dinheiro: o plano InvestAI, de 200 mil milhões de euros para centros de dados e capacidade de computação, quer evitar que o continente fique eternamente a alugar inteligência americana ou chinesa. O problema é que a infraestrutura está atrasada e, comparado com os orçamentos combinados de Microsoft, Amazon, Google e companhia, esse bolo é modesto. Enquanto isso, talento europeu continua a alimentar modelos estrangeiros e as melhores opções de IA barata podem fechar-se atrás de fronteiras nacionais.

Quando tanto Pequim como Washington tratam modelos de IA como munições estratégicas, a Europa tem uma escolha pouco glamorosa: ou acelera a sério a capacidade própria, com menos powerpoints e mais GPUs em funcionamento, ou aceita viver num mercado em que o acesso aos modelos topo de gama pode desaparecer ao sabor de leis de segurança nacional alheias. Não é um cenário hipotético, é o que já se está a ver em Pequim, em Washington e na forma como a regulação tenta apanhar a IA a correr.

Fonte: The Decoder

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