Os carros modernos já são quase smartphones com rodas. A diferença é que muitos recolhem dados em silêncio e vendem-nos ainda mais silenciosamente. O Miles Plug, analisado pelo The Verge, tenta ocupar o mesmo espaço digital no carro, mas com uma promessa pouco comum neste segmento: não transformar esses dados em produto.
O Miles é um pequeno dispositivo sem ecrã nem bateria que se liga à porta OBD-II do carro, aquela ficha usada nas oficinas para ler erros. Tem ligação de rede móvel e GPS, e fala com uma app para mostrar localização em tempo real, hábitos de condução, histórico de viagens e estado do veículo. A app inclui ainda um chatbot de IA, o Miles Mechanic, que interpreta luzes de aviso, avalia a urgência do problema e até estima custos de reparação. Na prática, é uma espécie de wearable para o carro, com direito a mecânico virtual.
Segundo o The Verge, o foco são sobretudo condutores jovens e pais ansiosos, um mercado onde já existem câmaras de tablier intrusivas e serviços de tracking com modelos de negócio pouco transparentes. Os fundadores do projeto, Matt McGovren e Kit Klein, vêm de empresas como Ring, Blink, Wink e Ubiquiti, conhecem bem o apetite da indústria por dados de utilizador e jogam com isso: defendem que “o cliente é o cliente, não o produto” e que o Miles foi desenhado para pôr pais e adolescentes a ver exatamente a mesma informação, sem painéis secretos nem modos espião. A tese é simples, e rara: segurança e monitorização sem vigilância encapotada.
O preço, contudo, não é simbólico. O dispositivo custa 99$, cerca de 90€, mais $180 (~165€) por um ano de serviço, pagos à cabeça. No total, são cerca de 255€ no primeiro ano, ou $11 por mês se se optar pelo plano de três anos, que fica em $396 (~365€), sempre com pagamento antecipado e sem renovação automática. Em troca, a subscrição inclui deteção de acidentes, pedido automático de ajuda em caso de colisão, assistência em estrada e partilha de localização com a família. A compatibilidade anunciada abrange a maioria dos carros a gasolina e híbridos desde 2008 e alguns elétricos.
Este tipo de adaptador não é novo. A diferença é a promessa de não vender dados de localização e condução, numa altura em que a própria FTC (Federal Trade Commission) já teve de proibir uma marca de carros de comercializar dados de geolocalização dos clientes. As contas, no entanto, não são triviais: sem publicidade nem revenda de dados, o modelo de negócio vive quase só da subscrição. Isso torna o discurso de privacidade mais credível, mas também cria a dúvida óbvia, o que acontece se a empresa um dia fechar a torneira de capital e desligar os servidores, deixando os clientes com mais um pedaço de plástico inútil na mão.
Para já, o Miles está à venda apenas online, através do site oficial da empresa. Quem testar um gadget deste tipo em Portugal terá sempre de o confrontar com alternativas domésticas mais tradicionais, como seguros com assistência em viagem incluída, e com a realidade algo incerta de qualquer serviço conectado jovem. Se o compromisso com a privacidade se aguentar no tempo, o Miles Plug mostra que há margem para produtos conectados que não tratam o condutor como matéria-prima. Se não se aguentar, será só mais uma lição de como dependemos excessivamente de caixinhas ligadas à cloud para tarefas que antes se resolviam com um telefonema.
Fonte: The Verge
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