Meta testa óculos de IA que gravam quase tudo, quase sempre
Prototipos de “super sensing” da Meta podem ouvir em contínuo e tirar fotos de segundos em segundos. Sem LED ligado e com muitas interrogações legais na Europa.
Prototipos de “super sensing” da Meta podem ouvir em contínuo e tirar fotos de segundos em segundos. Sem LED ligado e com muitas interrogações legais na Europa.
A Meta está a trabalhar em protótipos de óculos “super sensing” que fariam aquilo que todos temíamos dos wearables com câmara: estariam praticamente sempre a registar o que se passa à volta. Segundo o Financial Times, estes óculos de IA poderiam gravar áudio de forma contínua e tirar fotografias de poucos em poucos segundos, para depois o utilizador poder interrogar o Meta AI sobre o que foi captado.
O desenho técnico tenta soar menos assustador do que é. A proposta descrita ao jornal diz que o vídeo e o áudio em bruto nem sequer ficariam acessíveis ao utilizador nem armazenados pela Meta. Em vez disso, seriam extraídos metadados, enviados para os servidores e usados como base para perguntas ao assistente. Em teoria, isto reduz o risco de “arquivo total” do teu dia-a-dia. Na prática, significa que um sistema de IA passa a ter um fluxo constante de dados sobre onde estás, com quem falas, o que lês, o que compras. Metadados já chegaram para destruir a privacidade de muita gente antes.
O contexto não ajuda a confiar. Os óculos da Meta já estão debaixo de fogo por referências a funcionalidades de reconhecimento facial, relatos de homens a filmar mulheres na rua com os óculos e até modders pagos para remover o LED indicador de gravação. Esta semana, a empresa anunciou uma atualização que desativa a câmara se o sistema detetar que o LED foi adulterado. Parece prudente, até lermos a parte seguinte: em modo “super sensing”, a Meta planeia que esse LED esteja desligado por defeito.
Num whitepaper de julho de 2025, a empresa já dizia que reservava o LED para “captura ativa”, quando o utilizador grava fotos ou vídeo de propósito, deixando-o apagado em “funcionalidades de IA”, como ler um menu ou, no limite, estar constantemente a analisar o ambiente. O argumento é quase cómico: se o LED estiver sempre aceso, as pessoas deixam de lhe ligar. Logo, a solução é apagá-lo mesmo quando o dispositivo está a monitorizar o mundo à volta. Em termos de consentimento das pessoas filmadas ou ouvidas, isto é um tiro direto nas orientações que reguladores europeus têm vindo a repetir desde o Google Glass.
Há outra camada de preocupação: a Meta está a discutir internamente se estes dados poderão ser usados para treinar modelos de IA. Mesmo que a empresa prometa filtros, anonimização e “privacidade de raiz”, o historial de escândalos não joga a seu favor. Para quem vive na União Europeia, isto tudo bate de frente com RGPD e, potencialmente, com o novo enquadramento do Digital Markets Act aplicado a grandes plataformas. É difícil imaginar estes óculos a circularem livremente em Portugal sem uma guerra regulatória séria, especialmente depois de vermos polémicas semelhantes com auscultadores que gravam tudo o que ouves e dizes.
Oficialmente, a resposta da Meta é a de sempre. Não comentam protótipos internos, garantem que querem óculos “amados por quem os usa e por quem os rodeia” e repetem a fórmula de “privacidade desde o primeiro dia”. O problema é que um wearable de IA sempre atento, sem indicação visível de que está a captar dados, parece desenhado precisamente para o oposto. Se esta é a visão da Meta para o futuro da computação “ambiental”, convém discutir já se estamos minimamente dispostos a aceitar um mundo em que qualquer par de óculos pode ser um microfone da empresa, mesmo que o dono jure que nem consegue ver as gravações.
Fonte: The Verge
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