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Memória DRAM está a matar o smartphone barato, e a culpa é da IA

A RAM que alimenta servidores de IA está a engolir a margem dos telemóveis até 400€. Resultado: menos modelos baratos, mais compromissos e vida útil mais longa à força.

Memória DRAM está a matar o smartphone barato, e a culpa é da IA

Um telemóvel Android de 300€ já não é um negócio racional para muita gente da indústria. Segundo a Omdia, a memória passou a representar quase 60 por cento do custo de materiais de um smartphone abaixo dos 400$ (~365€) no primeiro trimestre de 2026. E não tem abrandado. É um número absurdo: mais de metade do que custa fabricar o aparelho é DRAM.

O motivo não está nos telemóveis, está nos data centers. A bolha da IA empurrou fabricantes como Samsung, SK hynix e Micron a priorizar chips de memória para servidores e GPUs, onde as margens são muito mais gordas. A consequência é conhecida de quem acompanha hardware: preços de DRAM a saltar, tal como já tinha acontecido nos PCs de entrada de gama, onde a memória já estava a estrangular máquinas de baixo custo. Agora é a vez dos smartphones baratos.

Para os modelos até 400$, os fabricantes quase não têm gordura para cortar. Omdia e TrendForce descrevem tentativas quase desesperadas: trocar painéis LTPO (low-temperature polycrystalline oxide) por LTPS (low-temperature polycrystalline silicon) em alguns modelos, o que poupa uns 3 a 5$ por unidade. Cortar câmaras, usar sensores mais pequenos, recuar para SoC (system-on-chip) de geração anterior, o que pode reduzir custos em 30 a 40 por cento. Mas quando a DRAM sobe mais 50 por cento num ano, como prevê a TrendForce, estas poupanças começam a parecer trocos.

O resultado já está nas contas: a Omdia espera que as remessas de smartphones abaixo dos 400$ caiam 22 por cento em 2026. Em contraste, o mercado global recua “só” 12 por cento e o segmento acima dos 400$ até deve crescer cerca de 5,7 por cento. Ou seja, o meio e topo de gama aguentam-se, porque aí o custo está mais espalhado: ecrãs melhores, sistemas de câmara mais caros, SoC mais potentes. Há espaço para trocar um painel mais barato ou um módulo de câmara menos ambicioso e absorver parte da escalada da RAM sem arrebentar logo o PVP.

Para quem compra em Portugal, isto traduz-se em menos oferta na faixa dos 150 a 300€, mais modelos “pseudo-médio-gama” cheios de concessões discretas e uma pressão ainda maior para subir para o patamar dos 400 a 600€. É a mesma lógica que já vemos nos Mac e iPad, onde até os recondicionados começaram a pagar a factura da IA. A factura da nuvem regressa sempre ao consumidor, seja na fatura da luz do data center, seja no preço do teu próximo telemóvel.

Não admira que a vida útil média do smartphone esteja agora nos 4,2 anos e projetada para chegar aos 4,7 anos até ao fim da década. Nem que o mercado de usados cresça, com um aumento de 12 por cento esperado só este ano. Cada vez mais gente prefere um topo de gama de há dois anos a um “novo” barato cheio de cortes invisíveis. Ironicamente, a corrida à IA que nos vendem como futuro inteligente está a empurrar o consumidor comum para uma escolha bastante básica: ou ficas com o telemóvel que tens durante quase cinco anos, ou pagas bem mais para não descer de qualidade.

Fonte: The Register

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