MediaTek junta 5 mil milhões para atacar chips de IA em datacenters
Fabricante taiwanesa quer até 20% de um mercado de 80 mil milhões de dólares com ASICs para IA. Analistas lembram que hoje a quota é praticamente zero.
Fabricante taiwanesa quer até 20% de um mercado de 80 mil milhões de dólares com ASICs para IA. Analistas lembram que hoje a quota é praticamente zero.
MediaTek, conhecida pelos chips baratos para telemóveis Android e Chromebooks, decidiu entrar a sério na corrida da IA em datacenters. O conselho de administração aprovou 5 mil milhões de dólares em financiamento, cerca de 4,6 mil milhões de euros, para garantir capacidade na cadeia de fornecimento e escalar de simples ASICs para sistemas completos de aceleração de IA.
O alvo é ambicioso: até 20% de um mercado de IA em datacenters que a própria MediaTek vê a valer 80 mil milhões de dólares já no próximo ano. A aposta não está em GPUs, o terreno onde a Nvidia manda e volta a subir preços, como vimos na recente onda de aumentos das GPUs para IA, mas em ASICs (application-specific integrated circuits), chips à medida para cargas de trabalho concretas. Em teoria, menos flexíveis, mas mais eficientes em custo e consumo energético.
Rick Tsai, CEO da MediaTek, vende a narrativa da “agentic AI”, estes agentes de IA capazes de planear, executar, corrigir e repetir tarefas sozinhos, como o novo motor de procura de computação, tanto na cloud como na edge. A empresa diz ter já uma primeira família de ASICs desenvolvida em “estreita parceria” com grandes fornecedores de cloud dos EUA, com produção em massa prevista para o quarto trimestre de 2026, e um segundo acelerador a caminho, pensado para subir significativamente a fasquia em desempenho.
O plano financeiro segue o discurso técnico: a MediaTek espera mais de 2 mil milhões de dólares em receitas de ASICs para datacenters de IA em 2026, com “escala substancial” em 2027. Fala em desempenho optimizado para TCO e performance por watt, duas métricas que contam tanto para um hyperscaler da Califórnia como para um operador europeu a fazer contas à fatura de energia do próximo data center em Espanha ou Portugal. A empresa garante ainda que, em conjunto com o parceiro de packaging avançado, tem yields e fiabilidade do segundo ASIC alinhados com produção em alto volume em 2028.
O problema é que o mercado não começa em 2026. Broadcom, Marvell e até a própria Google, que decidiu abrir os seus TPUs a clientes externos, já ocupam o espaço dos ASICs de IA. E a Nvidia, mesmo centrada em GPUs, define o referencial técnico e comercial. Segundo a Gartner, a quota da MediaTek em aceleradores de IA em 2024 foi inferior a 1%. E as projecções continuam a colocá-la abaixo desse patamar. Traduzindo: falar de 15 a 20% de quota num segmento onde hoje é estatisticamente irrelevante cheira mais a pitch para investidores do que a previsão sólida.
Há um contexto importante: analistas como a Bloomberg Intelligence estimam que o mercado de ASICs de IA cresça 27% ao ano até 2033, passando de 8% para 19% do total de aceleradores de IA. Ou seja, há espaço real para alternativas aos GPUs, sobretudo quando os grandes modelos gerativos e agentes autónomos, como os que a OpenAI promete com o seu Presence voltado para agentes em produção, exigem eficiência obsessiva. A questão não é se os ASICs vão crescer, é quem chega a tempo com produto maduro, SDK decente e capacidade fabril reservada em nós de topo. A MediaTek tem dinheiro fresco e histórico em design de chips, mas entra num jogo em que o relógio já vai a meio da segunda parte.
Fonte: The Register
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