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IQM estreia-se na Nasdaq e testa apetite por quântica europeia

A finlandesa de computadores quânticos entra no Nasdaq Global Select Market, mantém raízes na Europa e expõe, no próprio prospecto, quão incerto continua o negócio quântico.

IQM estreia-se na Nasdaq e testa apetite por quântica europeia

A Europa acabou de pôr a sua primeira empresa de computação quântica numa grande bolsa norte-americana. A IQM, finlandesa de computadores quânticos de “pilha completa”, começou a ser negociada esta semana no Nasdaq Global Select Market, sob o ticker IQMX. É um marco para o sector europeu, mas o arranque morno em Nova Iorque mostrou que Wall Street ainda não está convencida de que a quântica já é negócio, e não só promessa.

O caminho até ao Nasdaq não foi o IPO tradicional. A IQM chegou ao mercado por via de uma fusão com uma “shell company” norte‑americana, o atalho financeiro que os EUA baptizaram como SPAC (Special Purpose Acquisition Company). No fim da operação, a empresa fica com uma caixa pró-forma de 337 milhões de euros, munição séria para um segmento que queima capital em investigação, fabrico de hardware superespecializado e parcerias com centros de computação de topo.

Do lado operacional, a IQM já tem algo raro num sector inundado de slides e protótipos: número de máquinas entregues e receita. Diz ter vendido 23 computadores quânticos de pilha completa, mais do que qualquer rival, para clientes como o consórcio italiano CINECA, o centro de supercomputação Leibniz, na Alemanha, e o Oak Ridge National Laboratory, ligado ao Departamento de Energia dos EUA. Em 2025 reportou 31 milhões de euros em receita e uma carteira de encomendas acima de 67 milhões de euros. Para um mercado em que nomes como IonQ e Rigetti continuam a acumular prejuízos, e em que a Quantinuum, apoiada pela Honeywell, persegue uma avaliação até 20 mil milhões de dólares com vendas modestas, estes números contam.

O outro ponto relevante para quem olha de Portugal ou do resto da UE: a IQM recusou o guião clássico da deep tech europeia. Em vez de mudar a sede para Delaware e emigrar o centro de decisão, manteve dois terços dos 420 trabalhadores em Espoo, perto de Helsínquia, e uma base forte em Munique. Vai listar‑se também na bolsa de Helsínquia logo a seguir a Nova Iorque, preservando no capital investidores públicos e fundos de pensões finlandeses, ao lado de gigantes globais como a BlackRock. É um recado político: dá para ir buscar capital norte‑americano sem desertar do continente.

Os próprios investidores de risco trataram o momento como símbolo. Para Tom Henriksson, da OpenOcean, a estreia na Nasdaq mostra que uma empresa europeia consegue aceder a capital “sério” dos EUA sem deslocalizar I&D ou ambição. Mas a reacção do mercado foi menos épica. As acções passaram grande parte do primeiro dia abaixo do preço de referência. Uma das razões apontadas foi uma frase crua do próprio prospecto: a empresa admite que a comercialização em larga escala da tecnologia quântica continua profundamente incerta. Traduzindo, há receita, há encomendas, mas ainda não há prova de que isto escala como um negócio de semicondutores ou de cloud.

Para Portugal e para o resto da Europa, o sinal é ambivalente. Por um lado, mostra que o continente consegue gerar hardware quântico competitivo e levá‑lo ao Nasdaq sem abdicar da base europeia. Por outro, lembra que o sector continua a pedir cheques gordos em troca de horizontes de retorno muito nebulosos. A IQM comprou tempo e palco. Agora tem de provar que os seus 337 milhões de euros não vão acabar como tantos projectos quânticos: enterrados num laboratório brilhante, mas distante da realidade económica.

Fonte: The Next Web

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