Intel levanta até 20 mil milhões para desafiar a TSMC na fundição
O boom da IA triplicou as ações e abriu a porta a uma mega-emissão. Intel vende novo papel para financiar fábricas e empacotamento avançado e tentar voltar ao topo dos chips.
O boom da IA triplicou as ações e abriu a porta a uma mega-emissão. Intel vende novo papel para financiar fábricas e empacotamento avançado e tentar voltar ao topo dos chips.
Quando uma ação quase triplica num ano, a gestão tem duas escolhas: contemplar o gráfico ou carregar no botão de imprimir papel. A Intel escolheu a segunda. Vai emitir 15 mil milhões de dólares em ações ordinárias, com possibilidade de chegar aos 20 mil milhões se os bancos colocadores exercerem a opção inteira.
O preço ficou à volta dos 95 dólares por ação, um desconto tímido de 2,6% face ao fecho anterior de 97,52 dólares. Para uma emissão desta escala, é praticamente simbólico. Sinal claro de que, depois de anos a servir de exemplo de como não gerir uma viragem tecnológica, a Intel voltou a ser o ativo que muitos fundos têm medo de não ter em carteira.
O dinheiro tem destino marcado: a divisão de fundição, a área que fabrica chips para terceiros e onde a TSMC continua a jogar quase sozinha na liga dos 3 e 2 nanómetros. A Intel quer fábricas novas, mais capacidade de empacotamento avançado e compromisso firme com o processo 14A até 2028. Em linguagem menos de marketing, isto significa mais betão, mais CAPEX e mais risco. A empresa já subiu a previsão de investimento de capital para 2026 de 18 para 20 mil milhões de dólares. Esta emissão serve para alimentar esse buraco sem carregar ainda mais na dívida.
Há, no entanto, tração real por trás do discurso. A Intel diz ter a Tesla alinhada como cliente para o 14A e circulam relatos de possível parceria com a Apple. Se se confirmarem, são dois nomes que validam uma fundição que até aqui falhou em roubar clientes de topo à concorrente taiwanesa. E encaixam na corrida global em que todos estão a enterrar dezenas de milhar de milhões em fábricas, da SK Hynix na memória à própria Terafab de Musk, onde a Intel também entrou como parceira de fundição, algo que já analisámos no artigo sobre a mega-fábrica de chips no Texas.
O apetite dos investidores foi proporcional ao tamanho do cheque. A procura pela oferta terá passado os 100 mil milhões de dólares, o que é mais um retrato psicológico do mercado de IA do que uma análise fria dos riscos industriais. Os mesmos analistas que há dois anos tratavam a Intel como dinossauro estão agora a argumentar que levantar capital depois de um aumento de cinco vezes desde agosto passado “faz todo o sentido”. Fácil concordar, quando a memória das perdas é curta.
Convém também lembrar quem amorteceu a queda e pagou parte da recuperação. O governo dos EUA entrou com dezenas de milhar de milhões via CHIPS Act, lado a lado com investimentos de peso e com compromissos como os milhares de milhões prometidos para produção na Irlanda. Isto não é um regresso romântico de uma velha glória, é uma aposta política e industrial para travar a dependência da Ásia em manufactura avançada. O recuo de 4 a 5% nas ações no dia do anúncio é o lembrete básico de que mais ações significam diluição, não desamor. A verdadeira questão é se, quando estas fábricas estiverem prontas, a margem nos chips ainda justifica a conta. Os gráficos de hoje não respondem a isso.
Fonte: The Next Web
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