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Governo dos EUA volta a permitir TikTok em dispositivos oficiais

Washington recua no banimento do TikTok em telemóveis federais depois de criar uma entidade “americana” separada da ByteDance. A desconfiança política, essa, não desapareceu.

Governo dos EUA volta a permitir TikTok em dispositivos oficiais

O Departamento de Justiça dos EUA resolveu dar meio passo atrás: o TikTok deixa de estar proibido em dispositivos do governo federal, decisão que inverte o banimento imposto em 2022 por motivos de segurança nacional. A mudança apoia-se numa engenharia societária e técnica, não numa súbita epifania sobre privacidade: o TikTok nos EUA passou a ser operado por uma entidade separada, maioritariamente controlada por investidores não chineses.

Depois de anos de ameaças de bloqueio total e de avisos públicos do FBI sobre o risco de espionagem chinesa, o Congresso forçou a ByteDance a separar o negócio americano. O resultado é a criação da TikTok USDS Joint Venture, onde a ByteDance mantém perto de 20 por cento, e o controlo passa para um consórcio de investidores ocidentais com a Oracle na primeira linha, incluindo a infraestrutura em nuvem. Em teoria, o TikTok que corre nos telemóveis oficiais em Washington já não é, formalmente, um braço direto de Pequim.

Na prática, o Departamento de Justiça diz que a versão gerida pela nova joint-venture funciona de forma independente da ByteDance, com um algoritmo de recomendações revisto e um programa de cibersegurança próprio, alegadamente blindado contra os “elementos preocupantes” que motivaram o bloqueio original. Soa familiar: é a mesma lógica de contenção tecnológica que os EUA usam noutros dossiês com a China, da proibição de chips avançados até à tentativa de travar fornecedores de memória chineses no mercado global.

Importa sublinhar que o recuo não é um cheque em branco. Cada agência federal continua livre de manter ou impor o seu próprio bloqueio ao TikTok em telemóveis de serviço, seja por risco operacional, seja por algo bem mais mundano: produtividade. O próprio Departamento de Justiça escreve que as agências podem banir o TikTok apenas para evitar distrações, formulando burocraticamente aquilo que qualquer gestor de equipa já sabe há anos.

Do lado da app, a mensagem é óbvia: dados de utilizadores americanos ficam em solo americano, na nuvem da Oracle, e o treino do algoritmo para esses utilizadores é feito com dados locais. Ao mesmo tempo, a empresa promete que o feed continua a misturar conteúdo internacional, porque nenhum adolescente em Washington quer ficar preso a vídeos de Kansas. A tentativa é de quadrar o círculo: manter o apelo global de uma rede social chinesa, embrulhando-a numa capa jurídica e técnica suficientemente “estadunidense” para sossegar legisladores.

Para quem olha a partir de Portugal, este vaivém mostra mais uma vez como a geopolítica digital já não se decide só em Bruxelas e Washington, mas no código de recomendação de meia dúzia de plataformas. A UE está a apertar a Meta no dossiê da dependência e vício das redes sociais, como no caso em que considera Facebook e Instagram viciantes. Os EUA preferem uma via mais nacionalista: se o algoritmo manda no tempo de antena, convém garantir que responde a investidores “do lado certo”. O TikTok saiu dos telemóveis federais pela porta da segurança, regressa pela porta da engenharia societária. O risco real para os dados públicos só vamos conhecê-lo quando houver uma fuga ou um escândalo, não num memorando jurídico bem escrito.

Fonte: Engadget

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