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Kagi quer ressuscitar a web humana, um site de cada vez

O motor de busca pago aposta em resultados sem lixo publicitário e num “Small Web” cheio de blogs e projectos pessoais. É nostalgia, mas também um comentário político sobre o estado da web.

Kagi quer ressuscitar a web humana, um site de cada vez

Se ainda te lembras de procurar coisas na web sem levar com meia página de anúncios, Kagi é uma espécie de viagem no tempo. É um motor de busca pago, focado em privacidade, que agora se estende a um “Small Web” de sites feitos por pessoas, não por LLMs entediados.

O modelo de negócio é frontal: pesquisas custam dinheiro. Começa em cerca de 5$ por mês, algo como ~5€ para 300 pesquisas, com assistente de IA incluído ao nível base, e sobe para 10$ (~9€) por pesquisas ilimitadas. Há um teste gratuito com 100 pesquisas. O argumento é simples e difícil de rebater: a pesquisa tem custo, a diferença é se pagas com dinheiro, com dados pessoais ou com tempo perdido a atravessar anúncios e resultados patrocinados.

Kagi usa índices próprios para web e notícias, tenta empurrar sites não comerciais e resultados “relevantes e de qualidade” para cima e, detalhe importante, não mistura publicidade com resultados orgânicos. Uma pesquisa por uma banda, por exemplo, devolve o site oficial, Wikipedia, redes sociais e YouTube, sem caixas de bilhetes, “pessoas também pesquisam” e outros enfeites que hoje parecem inevitáveis no Google. É pesquisa mais nua e crua, próxima da viragem do milénio, mas com filtros modernos para imagens, vídeos, podcasts, mapas, notícias, idioma e tempo.

Para quem está em Portugal, há outro detalhe: pagar por pesquisa é menos estranho quando já se paga subscrição por praticamente tudo. A diferença é que aqui a troca é directa, não há uma gigante da publicidade a seguir o teu rasto para afinar campanhas. A dúvida legítima é se o valor de 5$ a 10$ por mês aguenta a comparação com alternativas gratuitas, sobretudo quando o Bing ou o próprio Google continuam bons o suficiente para pesquisas rápidas de dia-a-dia.

O que torna Kagi mais interessante é o projecto Small Web. É uma espécie de diretório moderno, curado, que tenta destacar “o melhor da internet feita por humanos”. Há apps para Android e iOS, um botão de “Next Post” para saltar aleatoriamente, favoritos, pesquisa interna e partilha. O que encontras são, sobretudo, blogues e páginas pessoais sobre temas de nicho: debates sobre Python, textos sobre física de partículas, ensaios sobre narrativa, arte digital sem ambição de NFT. Não é desenhado para viralizar, é pensado para quem ainda acha graça a tropeçar em coisas estranhas feitas com carinho.

Podes filtrar por tópicos como DIY & Making, Viagens & Outdoors, Retro ou Cultura Pop, numa lógica que lembra antigos diretórios do Yahoo ou AltaVista. Nem todos os cliques vão ser ouro, e isso é precisamente o ponto: aceitar o desperdício e a surpresa em vez de um feed treinado para maximizar retenção. Num momento em que a web aberta sofre com SEO agressivo, spam de IA e redes sociais fechadas, um motor de busca pago que celebra blogues e sites independentes soa menos a nostalgia e mais a acto de resistência. Resta saber quantas pessoas estão dispostas a pagar, em euros reais, por uma web que já foi dada por garantida.

Fonte: Wired

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