Nos EUA, o governo de Joe Biden acabou de oferecer a Elon Musk um argumento que vale ouro: o Departamento de Justiça (DOJ) defende em tribunal que a IA da xAI é “vital” para a segurança nacional, incluindo operações militares recentes contra o Irão. O contexto é bem menos glamoroso que a retórica de Silicon Valley, são turbinas a gás natural a trabalhar sem licença num data center no Mississippi, alvo de um processo da NAACP, a histórica associação de direitos civis norte-americana.
O caso gira em torno do Colossus 2, o segundo centro de dados da xAI em Southaven, Mississippi. Segundo a NAACP, a empresa está a operar dezenas de turbinas de gás sem cumprir o Clean Air Act, a lei federal da qualidade do ar, aumentando riscos de ataques de asma e doenças cardiovasculares em comunidades já saturadas de poluição. Em abril, a associação avançou com uma ação judicial e, em maio, pediu uma injunção para mandar desligar as turbinas.
A resposta veio esta semana: o DOJ interveio para apoiar a xAI e o próprio estado do Mississippi, pedindo ao tribunal que arquive o processo. No seu memorando, o governo escreve que parar as turbinas “ameaça a segurança nacional, económica e energética americana” porque cortaria a energia que alimenta modelos de IA que suportam operações militares secretas. Segundo o documento, existem apenas quatro modelos de IA capazes de operar em redes Secret e Top Secret, e o Grok, da xAI, surge no centro deste grupo restrito.
Uma declaração anexa, assinada por Cameron Stanley, responsável digital e de IA no Departamento de Defesa, vai mais longe: o modelo Gov do Grok é descrito como essencial para “missões vitais de segurança nacional” e já foi usado em ataques recentes contra o Irão. A conclusão política é conveniente, desligar turbinas poluentes num condado pobre passa a ser apresentado como risco geopolítico. Depois de meses de críticas à poluição dos data centers e à voracidade energética da IA, o governo dos EUA recorre ao mesmo argumento que já se viu noutras frentes, da pressão da Casa Branca sobre modelos da Anthropic às campanhas mediáticas da OpenAI sobre ameaças a infraestruturas, a IA é segurança nacional, ponto.
Entretanto, os números no terreno continuam a subir. O processo inicial da NAACP identificava 27 turbinas a funcionar sem licença em Southaven. Emails entre a xAI e reguladores estaduais, obtidos pelo Southern Environmental Law Center, mostram que em meados de maio já eram 57 turbinas. Ou seja, depois de processada, a empresa praticamente duplicou a capacidade. Segundo cálculos do centro, isso traduz-se em mais 111% de emissões de óxidos de azoto, mais 83% de partículas finas PM2.5 e mais 88% de formaldeído desde abril.
Para quem olha da Europa, onde centrais a gás e licenças ambientais são assunto sério e o RGPD limita bem o que pode ser justificado com “segurança nacional”, o quadro é revelador. A IA generativa é apresentada como infraestrutural, quase ao nível de um sistema de mísseis, mas a energia que a alimenta continua presa aos combustíveis fósseis mais baratos. A mensagem do governo norte-americano é clara: quando a IA entra na rubrica defesa, o direito a ar respirável perde prioridade. E isso diz mais sobre o modelo político que sobre a tecnologia em si.
Fonte: Wired
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