Falhas descobertas por IA ainda não estão a dar superpoderes a atacantes
VulnCheck olhou para mais de mil vulnerabilidades com dedo da IA e concluiu: quase nada foi explorado. O pânico com modelos frontier parece superar, e muito, os dados reais.
VulnCheck olhou para mais de mil vulnerabilidades com dedo da IA e concluiu: quase nada foi explorado. O pânico com modelos frontier parece superar, e muito, os dados reais.
Nos últimos meses, o discurso em segurança tem sido simples: modelos de IA de topo vão encher a internet de exploits prontos a usar. Acontece que os números agora publicados pela VulnCheck contam uma história bem mais aborrecida, e isso é precisamente o ponto interessante.
A empresa pegou em 1.061 vulnerabilidades atribuídas publicamente a ferramentas de IA, sobretudo ao Project Glasswing da Anthropic e à Berkeley Vulnerability Research Initiative, e cruzou-as com a sua base Known Exploited Vulnerability (KEV). Resultado: só 14 falhas, cerca de 1,3 por cento, foram confirmadas como exploradas em sistemas reais. Praticamente igual à taxa média do resto do universo de bugs seguido pela VulnCheck. Ou seja, os bugs encontrados com ajuda da IA não estão a transformar-se em armas com mais facilidade do que os tradicionais.
Isto contrasta com a narrativa que acompanhou o anúncio do Project Glasswing em abril. A Anthropic vendeu a ideia de que o seu sistema, alimentado pelo modelo Claude Mythos, tinha encontrado dezenas de milhares de potenciais falhas e que isso podia permitir a atacantes sequestrar sistemas, parar operações ou roubar dados em escala. Mythos terá identificado 23.019 “candidatos” a vulnerabilidade, mas, em público, quase nada disso existe: só 126 se materializaram em entradas CVE e apenas uma é conhecida como explorada no mundo real. Pior, o registo público de divulgação da própria Anthropic praticamente não mexeu desde o lançamento de Glasswing, um detalhe pouco compatível com o tom alarmista inicial.
Patrick Garrity, investigador de segurança na VulnCheck, não está a dizer que a IA é inofensiva. O que ele diz, basicamente, é que os dados não suportam a tese de que vulnerabilidades descobertas com IA sejam, por natureza, mais perigosas. A IA está a aumentar o volume de falhas detectadas, não a percentagem das que acabam em ataque. Isto dá uma janela a equipas de segurança para corrigirem problemas antes de alguém os transformar em ransomware ou botnets, algo particularmente relevante numa altura em que vemos falhas em serviços de IA com impacto bem concreto.
Convém também não romantizar o atacante. Quem explora falhas a sério não anda à espera de bases de dados bonitas com o selo “descoberto por IA”. Segundo a VulnCheck, só na primeira metade de 2026 surgiram 495 vulnerabilidades activamente exploradas, muitas em gestores de conteúdo e dispositivos de borda de rede, os alvos de sempre porque são fáceis de encontrar e difíceis de manter actualizados. Em paralelo, produtos de IA começam a ser, eles próprios, um alvo apetecível, como se viu com a sucessão de problemas em grandes modelos e plataformas nos últimos meses, dos incidentes com a OpenAI ao caso do Claude em macOS.
No meio disto, a frase mais incómoda do relatório é simples: “sobrevalorizado face à evidência disponível hoje”. O risco não é imaginário, mas tem sido inflacionado por discursos de palco e relatórios de marketing. A parte curiosa para quem trabalha em segurança em Portugal é que nada disto muda o básico: patching consistente, visibilidade sobre o que está exposto e uma boa gestão de software banal continuam a valer mais do que qualquer slide sobre IA maligna. A tecnologia está a acelerar a caça ao bug, mas o drama apocalíptico continua a morar mais nas apresentações do que nos logs.
Fonte: The Register
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