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EUA pressionam aliados a escolher lado na corrida global da IA

Washington prepara uma carta a parceiros a dizer que não há meio-termo: ou Pax Silica com os EUA, ou o bloco de IA liderado por Pequim.

EUA pressionam aliados a escolher lado na corrida global da IA

“Estar em tudo é não estar em nada.” A frase não é de filósofo, é de um draft do Departamento de Estado norte-americano. Segundo a Reuters, os EUA estão a preparar uma carta para países aliados a dizer, sem grandes rodeios, que têm de escolher lado na corrida da IA: Washington ou Pequim, mas não os dois.

O aviso encaixa na chamada Pax Silica, a iniciativa lançada no ano passado pelos EUA para blindar cadeias de abastecimento de modelos de IA, semicondutores e minerais críticos. Cerca de duas dezenas de países já assinaram, incluindo a União Europeia. A mensagem agora é clara: quem aderir em simultâneo à estrutura de cooperação de IA da China fica de fora do clube liderado por Washington.

Neste momento, o único país a jogar nos dois tabuleiros é o Cazaquistão. Tem reservas relevantes de minerais críticos, vitais para chips e infra-estrutura de IA, por isso é tratado como peça demasiado útil para ser descartada. A rigidez da posição norte-americana contrasta com a abordagem mais pragmática de outros, como o Brasil, que anda a dividir investimentos em supercomputadores de IA entre os dois blocos, como já detalhámos no artigo sobre o Brasil a apostar em dois supercomputadores de IA, um alinhado com cada lado.

Do lado chinês, Xi Jinping lançou em julho a World Artificial Intelligence Cooperation Organization, uma espécie de contra-bloco que promove modelos de IA de open weight made in China como alternativa aos sistemas fechados de players como OpenAI e Anthropic. É geopolítica embrulhada em licenças de modelo: os EUA empurram por controlo de exportações, parcerias exclusivas e cadeias de produção alinhadas; a China oferece código para descarregar, com as habituais letras pequenas políticas.

A embaixada chinesa em Washington já atacou esta jogada, dizendo que dividir o mundo em blocos de IA só atrasa o progresso global e não serve os interesses de ninguém. É o tipo de frase que fica bem em comunicado, mas que ignora o que está em jogo: quem controla a computação, os dados e o talento define as regras. A IA já é infraestrutura estratégica ao nível da energia ou dos cabos submarinos. E a pressão norte-americana encaixa na mesma linha dura que já vimos em casos como a tentativa de travar chips de memória chineses nos iPhone.

Para países médios, incluindo Portugal e a própria UE, a mensagem é desconfortável. Integrar Pax Silica pode significar acesso preferencial a hardware, modelos e investimento dos EUA, mas ao preço de fechar portas a iniciativas chinesas. Ficar de fora é arriscar-se a ser cliente de segunda linha na próxima década de IA. A terceira via europeia, aquela em que Bruxelas regula alto e tenta manter pontes para os dois lados, está a encolher a olhos vistos. A corrida da IA não é só quem lança o modelo mais avançado, é quem aceita viver sob a esfera tecnopolítica de quem.

Fonte: The Decoder

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