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Washington quer travar chips de memória chineses nos iPhone

O secretário do Comércio dos EUA avisou Tim Cook: a Casa Branca não quer memória chinesa nos produtos Apple. No meio, há escassez global, lobbys e muita geopolítica.

Washington quer travar chips de memória chineses nos iPhone

Howard Lutnick, secretário do Comércio dos Estados Unidos, acabou de dizer em voz alta o que já se percebia nas entrelinhas: a administração Trump não quer que a Apple compre chips de memória a fabricantes chineses. O recado foi dado em entrevista ao Wall Street Journal, depois de uma visita a uma fábrica da Apple em Houston. Tradução livre: o problema já não é só escassez de semicondutores, é política externa em estado puro.

A Apple anda há meses a tentar diversificar o abastecimento de memória por causa da falta global de RAM e NAND. Entre as hipóteses estão duas empresas chinesas, CXMT e YMTC. O detalhe que complica tudo: a YMTC está na Entity List do Departamento do Comércio norte-americano, uma lista de entidades sujeitas a fortes restrições de exportação, e tanto a YMTC como a CXMT foram classificadas pelo Pentágono como empresas ligadas ao exército chinês. Ou seja, qualquer partilha de informação técnica sensível pode bater de frente nas regras de controlo de exportações.

Sabih Khan, COO da Apple, tentou baixar a tensão ao explicar ao WSJ que a empresa costuma personalizar muitos componentes, mas que “não há muita personalização” na memória. Em teoria, isto abriria a porta a chips de prateleira vindos da China, sem grande troca de segredos industriais. O problema é que, se a Apple acabar mesmo por exigir algo à medida para futuros iPhone e Mac, teria de partilhar detalhes de produto com CXMT ou YMTC. Isso obriga a licenças específicas de Washington, que neste momento parecem politicamente tóxicas.

Do outro lado está Micron, gigante norte-americana da memória, que tem sido acusada de aproveitar o contexto para subir preços enquanto pressiona o governo contra a concorrência chinesa. O comentário mais votado na peça do 9to5Mac resume o clima: não é só segurança nacional, é também protecionismo clássico de indústria instalada. Esta disputa encaixa no mesmo tabuleiro em que vemos a corrida à IA entre gigantes americanos e chineses, tema que já se sente na guerra de preços dos modelos generativos.

A ironia é que tudo isto acontece enquanto a Apple investe 600 mil milhões de dólares em produção nos EUA, com direito a novo centro avançado em Houston e sessões fotográficas com Tim Cook, senadores e autarcas sorridentes. O gesto é lido como moeda de troca para manter a Casa Branca de bom humor: mais fábricas e empregos em solo americano em troca de flexibilidade regulatória. Só que, pelos vistos, essa flexibilidade não vai chegar aos chips de memória chineses. Lutnick diz que transmitiu a oposição do governo “de forma clara” à Apple.

Para quem olha de fora, incluindo da Europa, o recado é simples: a cadeia de fornecimento tecnológica está cada vez mais prisioneira da geopolítica. A Apple quer menos dependência de um punhado de fornecedores, Washington quer menos dependência da China, e o resultado prático pode ser hardware mais caro e menos previsível para quem compra um iPhone em Lisboa ou São Paulo. Enquanto a empresa ajusta a postura na China, onde até a IA já tem versão especial para agradar a Pequim, do lado americano a margem de manobra nos semicondutores está a encolher rapidamente.

Fonte: 9to5Mac

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