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Casa Branca escreve as regras da IA em directo e à porta fechada

O braço-de-ferro entre a Anthropic e a administração Trump expõe um detalhe pouco confortável: não há lei clara, mas há castigo imediato. E pouca gente sabe porquê.

Casa Branca escreve as regras da IA em directo e à porta fechada

Há quase uma semana que a Anthropic está com os seus modelos de ponta encostados à parede. Claude Mythos e Fable 5 foram desligados às ordens da administração Trump, num ofício de controlo de exportações que apanhou toda a gente de surpresa. Desde então houve reuniões, recuos e comunicados, mas continua a faltar o básico: uma explicação clara sobre o que é que a empresa fez de errado.

Segundo fontes próximas da Anthropic, a empresa está convencida de que não violou nenhuma regra concreta. Do outro lado, a Casa Branca acusa a startup de agir de forma imprudente, insinuando que não é de confiança para gerir tecnologia de fronteira. O problema é que essa “imprudência” não está escrita em lado nenhum. Num cenário em que quase não há leis formais sobre IA avançada, o poder passa a ser de quem decide caso a caso. E isso, para qualquer sector, é um pesadelo regulatório.

Um ex-responsável tecnológico da própria Casa Branca descreve o método como “slap-dash”: uma administração que passou anos a bloquear regras para a IA, com o argumento de que prejudicariam a inovação dos EUA face à China, agora reage em cima do joelho quando os riscos chegam à prática. Não há quadro estável, há directivas ad hoc. O episódio encaixa na linha do que já tínhamos visto quando a mesma administração exigiu à Anthropic uma IA impenetrável a jailbreaks, em aberta contradição com o que os próprios especialistas em segurança consideram matematicamente inatingível.

O caso Mythos tem dois gatilhos principais. Primeiro, o acesso dado à SK Telecom, gigante sul-coreana que Washington agora vê como demasiado próxima da China. A Anthropic alega que coordenou antecipadamente esse lançamento com o governo americano e, quando as objecções surgiram, cortou o acesso de imediato. Segundo, preocupações levantadas pelo CEO da Amazon, Andy Jassy, que avisou o Tesouro de que algumas salvaguardas do Claude Fable 5 podiam ser contornadas. Jailbreaks de modelos de linguagem são um problema real, mas também são inevitáveis em sistemas probabilísticos, algo que a própria Casa Branca já teve explicado em detalhe e que abordámos quando analisámos o pedido de “IA perfeita” para a Anthropic.

No meio disto, a reacção do governo produziu o oposto do que supostamente queria proteger. Ao exigir o bloqueio a todos os estrangeiros, impediu até funcionários da Anthropic de usar Mythos e Fable 5 e cortou o acesso a clientes como Apple, Meta e grande parte das empresas do índice Fortune 500. A investigação e desenvolvimento que o próprio governo diz querer preservar fica assim paralisada por uma decisão opaca. E a mensagem para o resto da indústria é simples: mesmo que cumpras o que está escrito, podes ser travado por algo que só existe na cabeça de meia dúzia de assessores.

Para quem está na Europa, esta novela não é um detalhe distante. Enquanto Bruxelas tenta codificar regras da IA em legislação discutível mas previsível, Washington prefere governar por ofício e rede social, como no post de David Sacks no X que serve de “explicação” oficial do caso. O risco é óbvio: se os EUA continuarem a usar a segurança nacional como baralho para intervir em modelos concretos, da suspeita de acesso chinês ao Mythos às queixas de concorrentes, a linha entre prudência e arbitrariedade fica cada vez mais fina. E quando a regra é escrita em tempo real, o erro passa a ser existir no sítio errado, na semana errada.

Fonte: Wired

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