O usbliter8 já era preocupante por si: um exploit de BootROM para chips A12 e A13 que não pode ser corrigido por atualização de software. Agora ganha uma camada extra de drama jurídico, com a Magnet Forensics a acusar a Paradigm Shift Technology de ter construído o ataque com base em segredos comerciais roubados.
Recapitulando o lado técnico. O usbliter8 explora o controlador USB nos SoC A12, S4, S5 e A13, usados em iPhones, Apple Watch e outros dispositivos lançados em 2018 e 2019. Com acesso físico e dados USB cuidadosamente preparados, um atacante ganha controlo do processo de arranque, corre código antes do iOS, ignora verificações de assinatura e consegue arrancar um sistema modificado. Por atacar a BootROM, gravada em hardware, não há update de segurança que resolva isto. O dano é estrutural, embora limitado a gerações de hardware já com alguns anos.
Quando a Paradigm Shift publicou os detalhes técnicos do usbliter8 em junho, garantiu que a divulgação tinha sido coordenada com a equipa de segurança de produto da Apple. O enquadramento era o habitual discurso de investigação responsável, com prova de conceito a justificar-se em nome da transparência. A Magnet Forensics conta outra história. A empresa acusa um antigo engenheiro, Mario Del Gaudio, de ter trabalhado internamente numa capacidade de acesso zero day chamada MSG e de, depois de sair, ter levado consigo conhecimento confidencial que acabaria materializado no usbliter8.
Nos documentos judiciais, a Magnet descreve o MSG como uma das suas capacidades mais sensíveis e diz que o exploit revelado pela Paradigm Shift é, “na substância”, o mesmo. Reclama ter provas que ligam diretamente Del Gaudio à publicação técnica e afirma que a Paradigm Shift ignorou várias ordens de cessar e desistir para remover o texto e o código de demonstração. Pede agora a remoção de tudo o que esteja relacionado com o usbliter8, compensação financeira e uma ordem de tribunal que impeça qualquer uso futuro dos alegados segredos comerciais.
É aqui que a conversa ultrapassa a Apple e entra no mundo cinzento da segurança ofensiva. Empresas que vivem de “capacidades de acesso” querem vulnerabilidades exclusivas, discretas e monetizáveis. Investigadores académicos e parte da comunidade de cibersegurança defendem divulgação pública, provas de conceito e whitepapers detalhados. Quando aparece um exploit não corrigível para chips Apple, é inevitável que surjam equipas de forense digital interessadas, tal como grupos de ataque menos escrupulosos. A ação da Magnet lembra também outros casos em que o conhecimento técnico circula de forma menos transparente, como nas recentes campanhas em que clones maliciosos de apps para macOS exploravam falhas pouco documentadas.
Para a Apple, o efeito prático continua a ser delicado mas contido. Não há sinais de exploração em massa, o ataque exige acesso físico e os dispositivos afetados são de gerações anteriores. Mas a imagem “Apple Silicon blindado” sofre mais uma fissura, e o caso judicial acende o holofote sobre a economia paralela de exploits que orbitam em torno do iPhone. A Petição não discute se era legítimo divulgar o usbliter8, discute quem tinha o direito de o explorar em silêncio. Na prática, esta batalha em tribunal é também um lembrete de que, sempre que um exploit chega a público, muitas vezes o que está em causa não é só segurança, é negócio.
Fonte: 9to5Mac
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