Investigadores trocam apps de macOS por clones maliciosas
Falha no Gatekeeper permite substituir executáveis de apps descarregadas da web depois da primeira utilização. Apple foi avisada e, por agora, não se mexeu.
Falha no Gatekeeper permite substituir executáveis de apps descarregadas da web depois da primeira utilização. Apple foi avisada e, por agora, não se mexeu.
O Gatekeeper do macOS tem um trabalho simples: impedir que corras software manhoso vindo da internet. Dois investigadores de segurança acabam de mostrar que, para muitas apps descarregadas da web, isso não está a acontecer.
Talal Haj Bakry e Tommy Mysk descobriram uma forma de trocar silenciosamente o executável principal de qualquer aplicação de macOS descarregada da internet e já aberta pelo menos uma vez, sem pedir privilégios de administrador. Na teoria, o Gatekeeper garante que o ficheiro é de um programador identificado, está notarizado e não foi alterado. Na prática, basta um truque com arquivos tar para passar pelo meio da rede.
O cenário de ataque não é mágico nem remoto: o atacante já precisa de conseguir correr código com permissões de utilizador, por exemplo através de uma app maliciosa, de um script que convenceste a correr no Terminal, ou de uma dependência comprometida instalada via npm ou Homebrew. Mas isso é precisamente o tipo de porta de entrada que malware recente para macOS como o ClickLock anda a explorar. Uma vez lá dentro, a técnica de Bakry e Mysk faz o resto.
A limitação importante: isto não funciona com apps da Mac App Store, porque são propriedade do utilizador root e um processo com permissões normais não as consegue sobrescrever. O alvo são as aplicações clássicas descarregadas do site oficial, como Brave, Slack, Signal ou Visual Studio Code. Ou seja, precisamente o tipo de software que muitos utilizadores de Mac em Portugal instalam fora da loja da Apple porque precisam dele para trabalhar.
O ataque funciona assim: instalas e abres a app uma vez, o Gatekeeper faz a verificação inicial e marca-a como de confiança. Depois, um processo com permissões de utilizador arquiva essa app com tar, apaga o original e coloca no mesmo caminho uma versão maliciosa. Segundo os investigadores, o macOS não volta a pedir autorização nem a revalidar devidamente a assinatura. A nova versão herda a confiança da antiga. A partir daí, qualquer pedido de palavra-passe ou acesso a dados sensíveis parece vir de uma app conhecida, o que baixa as defesas de qualquer pessoa minimamente distraída.
Tommy Mysk admite não saber ainda a raiz exacta da falha, mas aponta para cache de confiança mal gerida. O sistema marca a app como segura à primeira utilização, guarda essa info e depois não lida bem quando o executável muda. Tecnicamente, isto é o tipo de bug que a Apple costuma levar a sério. Politicamente, a resposta tem sido morna. Os investigadores reportaram o problema, a Apple não o classificou como vulnerabilidade crítica e, até agora, nada de patch. Para um sistema que se vende em grande parte com a promessa de segurança automática, é um silêncio difícil de justificar.
Para quem usa macOS em Portugal, o conselho é desagradavelmente básico: tratar apps descarregadas da web como se estivessem num Windows antigo. Desconfia de scripts e comandos colados no Terminal, limita o número de ferramentas instaladas fora da App Store e não assumes que um pop-up é honesto só porque vem de um ícone familiar no Dock. O marketing fala muito de “funcionar como magia”. Aqui o truque é outro, e não é o utilizador que está a ganhar.
Fonte: The Register
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