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Wearables sem ecrã querem que te esqueças que eles existem

Pulseiras como a Whoop ou a Fitbit Air apostam em desaparecer do pulso. A promessa é menos ruído e a mesma avalanche de dados de saúde na app.

Wearables sem ecrã querem que te esqueças que eles existem

Os novos wearables de que se fala menos são, ironicamente, os que mais querem desaparecer. Pulseiras sem ecrã, quase sempre em silicone ou tecido, pensadas para viver no pulso 24/7 e só pedirem atenção quando a bateria se queixa. O resto passa-se na app, horas depois, quando te lembras que um dia decidiste medir o sono até ao último microdespertar.

É a vaga dos wearables sem ecrã: Garmin Cirqa, Google Fitbit Air, Polar Loop, Amazfit Helio Strap, as Whoop de várias gerações, e o rumor insistente de que a Apple anda a estudar a sua própria versão. O pitch é simples, e bastante honesto: estamos cansados de notificações, de pulsos que vibram por cada WhatsApp e like, e de relógios que se transformaram em extensões ansiosas do telemóvel. A indústria percebeu que vender menos atenção pode ser um bom negócio.

Para quem anda nisto há mais tempo, há um déjà vu claro. Os primeiros Fitbits da década passada eram quase invisíveis, presos ao cinto ou ao bolso, e só olhavas para eles ocasionalmente. A diferença é que, pelo meio, os relógios desportivos e smartwatches ficaram viciados em ecrãs OLED, relatórios matinais, pontuações de sono e alertas de “levanta-te” que tratam qualquer pessoa como um adolescente preguiçoso. Hoje, muitos de nós passam o dia a erguer o pulso como se estivéssemos permanentemente em reunião com o próprio relógio.

Este novo minimalismo não é magia, é subtração de design. Por dentro, estas bandas são trackers clássicos: sensor de ritmo cardíaco, acelerómetro, bateria, Bluetooth, às vezes medição de variabilidade da frequência cardíaca ou temperatura da pele. O truque é tirar o ecrã, tirar as apps no pulso e empurrar toda a relação para o telemóvel. Ficas com dados quase clínicos e zero distrações no momento. Se isto resolve o vício de olhar para métricas ou só o desloca para o ecrã do telemóvel, essa é outra conversa.

A Whoop é o caso-escola. Em 2015 vendia-se como ferramenta de elite para atletas de alta competição, cheia de linguagem de “optimização de performance”. Hoje é um serviço de subscrição anual para qualquer pessoa com dinheiro para pagar, embrulhado na retórica do “como dormes, treinas e te sentes”. A mesma lógica de readiness de treino, alvo agora de um público muito mais vasto. Quando a Google tenta uma Fitbit mais discreta, ou quando surgem propostas como a Luffu Link dos fundadores da Fitbit, percebemos que a indústria não está só a copiar a Whoop, está a surfar o mesmo cansaço com tecnologia que reclama atenção constante.

Há aqui uma tensão curiosa. Estas pulseiras prometem menos ruído, mas vivem da mesma obsessão com quantificar tudo: passos, sono, recuperação, stress. São a expressão física de uma cultura que desconfia do telemóvel mas não quer largar os gráficos. Para quem está farto de smartwatches a tentar ser mini-smartphone, podem ser um compromisso aceitável. Para o resto, são só mais uma forma de vestir o mesmo problema com menos pixels.

Fonte: Wired

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