A guerra de patentes nos anéis inteligentes não abranda. A Oura voltou a processar a rival indiana Ultrahuman, agora para tentar travar outra vez as vendas do anel Ring Pro nos Estados Unidos, poucos meses depois de o modelo redesenhado ter permitido o regresso da marca ao mercado norte-americano após um bloqueio às importações.
De acordo com o TechCrunch, a queixa deu entrada ontem num tribunal federal do Texas. A Oura alega que o Ring Pro viola duas patentes suas, ligadas ao design do anel e a componentes internos como bateria e sensores. Pede indemnização financeira e uma injunção permanente que impeça a Ultrahuman de fabricar, importar e vender o anel nos EUA.
O Ring Pro redesenhado chegou ao mercado em fevereiro e recebeu em março um parecer favorável das alfândegas norte-americanas, que abriu caminho ao regresso da Ultrahuman aos EUA depois do anterior modelo Ring Air ter sido alvo de uma proibição de importação. Essa decisão foi consequência de uma disputa de patentes na International Trade Commission em 2024, que acabou por bloquear a entrada do Ring Air no país.
Na nova ação, a Oura insiste que essa decisão das alfândegas só cobria a patente envolvida na disputa anterior e não os dois registos agora usados em tribunal, identificados como D804.471 e 12.769.363. Este último é particularmente sensível: foi emitido a 20 de outubro, apenas dois dias antes da apresentação da queixa, e abrange um desenho de anel inteligente com bateria curva, placa de circuito, ímanes e sensores no interior. Não é por acaso que a acusação fala numa “história de copiar as inovações da Oura”. É a narrativa clássica de quem quer marcar terreno no segmento que ajudou a popularizar.
A Oura incluiu ainda um segundo alvo na ação: a SVTronics, fabricante de eletrónica sediada no Texas, acusada de produzir o Ring Pro numa unidade em Plano sob direção da Ultrahuman. A empresa finlandesa defende que tanto a startup indiana como a SVTronics infringem as patentes pela forma como fabricam, importam e comercializam o dispositivo nos EUA. Na prática, tenta apertar a torneira não só do lado da marca, mas também da produção local.
Do outro lado, a Ultrahuman garante que não se sente intimidada. O cofundador e CEO Mohit Kumar disse ao TechCrunch que a empresa está confiante no Ring Pro e que vai defender a sua posição “vigorosamente”. Sublinha ainda que não existe qualquer ordem judicial a afetar o anel e que o Ring Pro continua disponível para clientes nos EUA. O recado é claro para investidores e utilizadores: por enquanto, nada muda.
Oura e Ultrahuman disputam patentes desde 2023, quando a finlandesa avançou contra o Ring Air, o primeiro anel que deu tração à marca indiana nos EUA. Desde então, a estratégia da Oura tem sido agressiva: além da Ultrahuman, já abriu processos contra fabricantes de anéis inteligentes como Samsung, RingConn, Circular e Zepp Health. Alguns destes conflitos terminaram em acordos de licenciamento, com empresas como a RingConn e a Circular a aceitarem pagar royalties à Oura para continuarem a vender os seus produtos no mercado norte-americano. Não é só proteção de tecnologia, é também um modelo de negócio.
O contexto ajuda a explicar o ritmo dos processos. A consultora IDC estima que os envios globais de anéis inteligentes cresçam 12,8% este ano, para 4,9 milhões de unidades, e cheguem a cerca de 6,3 milhões em 2030. É um mercado pequeno ao lado dos smartwatches, mas com margem para margens altas: o hardware é caro, as subscrições de dados de saúde empurram a receita e o histórico de utilizador é ouro. Para quem detém patentes fortes, cada concorrente pode ser visto como uma linha de receita adicional ou um alvo a neutralizar.
A própria Oura também está a passar por um momento delicado. Há poucas semanas decidiu suspender a oferta pública inicial de 2,2 mil milhões de dólares, citando “incerteza” nos mercados. Em paralelo, continua a adicionar métricas e modos de treino ao anel, com novidades como o Cardio Effort e o VO₂ max que explicámos quando chegaram ao anel Oura. Enquanto afina o produto, encosta juridicamente os rivais. A mensagem é simples: quem quiser jogar neste nicho provavelmente vai pagar bilhete à finlandesa.
Já a Ultrahuman está bem financiada e não é apenas uma outsider exótica. Em setembro levantou 70 milhões de dólares, num investimento que envolveu a Qualcomm Ventures e valorizou a empresa em cerca de 365 milhões de dólares. A startup está ainda a trabalhar com a Qualcomm num novo anel capaz de correr mais software diretamente no dispositivo, com ambições que saem da saúde e do fitness para tocar em interações com IA e até gaming. Se conseguir manter o Ring Pro nas prateleiras norte-americanas enquanto prepara a próxima geração, o confronto com a Oura deixa de ser só jurídico e passa a ser uma verdadeira luta por quem define o formato anel como computador pessoal.
Fonte: TechCrunch
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