Vint Cerf reforma-se e volta a avisar: a IA precisa de normas
O co-criador da internet sai de cena em Google mas não larga o tema quente do momento. Sem padrões abertos para agentes de IA, arriscamos repetir os erros que a própria web tentou evitar.
O co-criador da internet sai de cena em Google mas não larga o tema quente do momento. Sem padrões abertos para agentes de IA, arriscamos repetir os erros que a própria web tentou evitar.
O homem que ajudou a ligar o mundo vai, finalmente, desligar-se de um dos cargos mais visíveis de Silicon Valley. Vinton Cerf, 83 anos, co-arquiteto dos protocolos que deram origem à internet moderna, vai deixar de ser vice-presidente e chief internet evangelist da Google na próxima semana, após mais de 20 anos na empresa. A saída foi revelada num painel da conferência Open Frontier, organizada pelo Laude Institute, e não por um comunicado polido da própria Google, que se remeteu ao silêncio.
Cerf é, com Robert Kahn, o nome colado a TCP/IP, o conjunto de regras que permite a redes de computadores falar umas com as outras desde os anos 70. Pelo meio levou para casa um Turing Award, a Presidential Medal of Freedom e uma colecção de doutoramentos honoris causa. Em Mountain View tinha um título meio folclórico, mas o trabalho foi bem real: empurrou a Google para temas de protocolos, infra-estrutura e governança da rede, numa fase em que a empresa ainda fingia que era só um motor de busca simpático.
O detalhe curioso é que Cerf se despede a falar, precisamente, de normas. Não de TCP/IP, mas de agentes de IA. No painel, ao lado de nomes como François Chollet (criador do Keras) e Matei Zaharia (co-fundador da Databricks), Cerf avisou que a próxima vaga de software autónomo, composto por múltiplos agentes que comunicam e colaboram, vai obrigar a uma nova ronda de interoperabilidade e estandardização. A ideia é simples e pouco confortável para quem vende soluções fechadas: ou há protocolos claros para estes agentes conversarem entre si, ou o caos semântico instala-se.
Alguns intervenientes acham que linguagem natural chega, que LLMs a falar “inglês” uns com os outros resolvem. Cerf não compra essa narrativa. O inglês é flexível e ambíguo, precisamente o oposto do que queres quando dois sistemas autónomos assumem compromissos entre si. Ele recuperou a metáfora do jogo do telefone: a frase que sai ao décimo participante nada tem a ver com a original. Agora troca crianças por agentes a gerir pagamentos, logística ou cuidados de saúde, e a graça desaparece rápido. Entre linhas, Cerf está a dizer à indústria de IA algo que já disse ao mundo dos routers: sem normas formais, alguém vai sair muito queimado.
Para quem está em Portugal, isto não é uma curiosidade académica. Bancos, telecoms, Estado e startups andam a experimentar “copilotos” e automações em cima de APIs de gigantes estrangeiros. Se os padrões destes agentes forem definidos em três salas de reunião na Califórnia, valem mais os contratos de vendor lock-in do que qualquer regulamento europeu. O contraste que a conferência sublinhou é violento: passámos de uma internet aberta e descentralizada, que tornou os protocolos de Cerf tão resilientes, para modelos de IA concentrados em meia dúzia de laboratórios com bolsos fundos.
Cerf arrisca a previsão: essa centralização não aguenta se o “modelo agentivo” da IA ganhar tração. A necessidade prática vai empurrar empresas para protocolos comuns, tal como as redes de então acabaram rendidas a TCP/IP. O problema é quem escreve essas regras agora. Quem chegar primeiro às normas de interoperabilidade dos agentes de IA arrisca controlar a gramática de uma futura economia automatizada. Não é uma nota nostálgica de despedida. É um aviso de quem já viu uma guerra de protocolos por dentro e sabe que quem dita o cabeçalho dita boa parte do poder.
Fonte: TechCrunch
Comentários · 0