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Unitree G1, o humanoide chinês que quer ser estrela da internet

O robô de 1,2 metros tornou-se figurino viral em meio mundo. A questão séria vem depois: é brinquedo de cliques ou antecâmara de empregos reais.

Unitree G1, o humanoide chinês que quer ser estrela da internet

Um robô de 1,2 metros a espantar javalis com uma mochila às costas e um Rolex falso. Foi assim que “Edward Warchocki”, um Unitree G1 comprado na China, rebentou nas redes sociais polacas e depois no resto do mundo. Sem falar, era só uma máquina de 40 kg a vaguear pela rua. Ligado a um modelo de linguagem capaz de conversar em polaco, passou a ser “tipo porreiro, não muito inteligente, mas emotivo”, como o descreve o criador, Bartosz Idzik.

Edward já foi ao parlamento, fez trilhos de montanha, levou uma falsa detenção da polícia e acumula hoje mais de 1 milhão de seguidores e 4 mil milhões de visualizações. E não está sozinho. Há o “Rizzbot”, de chapéu de cowboy a engatar gente em Austin, o “Bart Robot” a dançar com adeptos dos Knicks, o “Brickell Clanker” a trocar de camisola com fãs do Mundial. O detalhe que quase ninguém nota: são todos o mesmo modelo, o Unitree G1, um humanoide chinês com corpo de alumínio cinzento-claro e cara vazada com um anel de luz azul.

Esta coreografia de G1s a dançar em concertos, a tentar cozinhar, a fazer boxe e a rezar em templos e mesquitas é marketing involuntário de luxo para a Unitree, que se prepara para entrar na bolsa chinesa. Ao contrário de muitos rivais que ainda vivem de protótipos de laboratório, a empresa já vendeu 5.511 humanoides em 2025, a um preço médio abaixo de 25.000$, com 43 por cento das vendas fora da China, e fechou o ano com lucro. Num contexto em que a indústria tecnológica chinesa empurra para fora fronteiras e preços, não é surpresa ver a mesma dinâmica que já analisámos na guerra de preços da IA a chegar agora aos robôs físicos.

Há um lado mais prosaico: números destes significam escala e pressão competitiva. Um americano em Miami pagou cerca de 19.000$ através de um distribuidor local, depois de tarifas, transporte e impostos. Em Portugal, entre transporte, direitos aduaneiros e IVA, qualquer importação directa ficaria seguramente bem acima desse valor, sem falar em certificações elétricas e de segurança para uso em espaços públicos. E convém lembrar que Washington já anda a apertar tarifas sobre tecnologia chinesa, dos drones às peças de avião, como vimos quando Trump subiu taxas a 100 por cento. Os humanoides podem ser um dos próximos alvos.

A pergunta óbvia é se estes robôs servem para mais do que coleccionar clipes virais. A Unitree vende o G1 como plataforma “multiuso”, mas a esmagadora maioria dos casos que vemos hoje são entretenimento, promoção ou curiosidade turística. Trabalhar numa linha de montagem, limpar uma casa, fazer tarefas repetitivas com fiabilidade e segurança é outra liga. O próprio Edward, por muito carismático que seja na televisão polaca, continua a ser um actor com guião: alguém controla, alguém escreve, alguém paga a conta de manutenção.

Mesmo assim, há algo novo aqui. Pela primeira vez, humanoides minimamente capazes não custam milhões nem vivem escondidos em laboratórios de grandes grupos japoneses ou americanos. Custam o equivalente a um carro médio e podem ser comprados por criadores de conteúdo, empresas de eventos, universidades. A China passa de “copiadora” a referência num segmento em que o Ocidente andou anos a prometer mais do que a entregar. Se este primeiro capítulo é dominado por danças, selfies e javalis assustados, o próximo vai ser menos engraçado: quando alguém conseguir que um destes bonecos faça, dia sim dia sim, trabalho chato e barato. Aí a conversa deixa de ser só sobre views.

Fonte: Wired

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