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Um comedouro de pássaros com IA que acabou no armário

O Kiwibit Bird Feeder 2 Pro promete identificar aves em 4K e encher o telemóvel de alertas fofos. Segundo o The Verge, também pode transformar o jardim num buffet para pombos e ratos.

Um comedouro de pássaros com IA que acabou no armário
Imagem ilustrativa | Pixel Magazine

A ideia parece perfeita para quem gosta de aves mas também de gadgets: um comedouro com câmara 4K, painel solar e IA a identificar automaticamente cada visitante. Foi assim com o Kiwibit Bird Feeder 2 Pro, um comedouro “smart” de cerca de 250€ que o The Verge levou para o jardim. As primeiras notificações eram um pequeno festival de ornitologia de bolso: chapins-reais, chapins-azuis-europeus, tudo em alertas fotográficos nítidos e vídeos HDR a correr no telemóvel.

Segundo o The Verge, a app da Kiwibit Bird Feeder 2 Pro não se limita a dizer o nome da espécie. Mostra hábitos de migração, locais típicos de nidificação e preferências alimentares. A câmara grava tudo em 4K HDR, com bastante detalhe para quem quer distinguir marcas na plumagem e praticamente adoptar os pássaros como “pets” semi-selvagens. Durante uns dias, o cenário foi esse: dezenas de aves pequenas a pousar, roubar uma semente de girassol descascada e a desaparecer para a copa das árvores.

O encanto que o jornalista descreve acaba quando chega o convidado que ninguém quer: o pombo. Ou melhor, vários. A IA até o identifica correctamente como pombo-torcaz, mas o efeito prático é um bloco cinzento a ocupar todo o enquadramento da câmara enquanto se enfarda à grande. O comedouro passa de observatório de chapins a cantina de pombo urbano em poucos minutos. O sistema tem um “Nuisance Animal Alarm”, pensado para esquilos e pragas semelhantes, que dispara um alarme sonoro. De acordo com o The Verge, o pombo encolhe-se, olha em volta, e continua a comer como se nada fosse, provavelmente com os vizinhos a levar com o barulho.

Pior: o pombo traz companhia. Com tanta semente a cair para o chão, começam a aparecer ratos por baixo do comedouro, uma linha vermelha para muita gente que achava estar só a alimentar “pássaros bonitos”. Ao fim de alguns dias de insistência, e com pombos a ocupar o comedouro durante longos períodos, o aparelho de 250€ acaba desmontado e enfiado num armário. A tecnologia funciona como prometido, mas não controla quem descobre o novo buffet.

Esta pequena tragédia de jardim é um bom lembrete de que nem todo o “smart” é inteligente no mundo real. Os comedouros com IA vendem-se com promessas de ciência cidadã, registos de biodiversidade e vídeos fofos para partilhar, mas raramente falam do lado menos instagramável: pragas, vizinhos irritados com alarmes sonoros e a logística de despejar um balde de sementes premium em frente à fauna oportunista. Não é que o produto falhe tecnicamente, a questão é que optimizar para reconhecimento de espécies e notificações não resolve o problema básico do design físico: qualquer coisa com comida vai atrair quem tiver mais apetite, não quem a app acha mais giro.

Para quem olha destes gadgets com curiosidade, o relato do The Verge deixa uma lição simples. Antes de investir num comedouro de pássaros com IA, convém olhar para o que já anda pelo bairro: se há muitos pombos e roedores, um gadget caro com câmara 4K pode ser menos uma janela para a natureza e mais um imã para tudo o que andas a tentar afastar do jardim ou da varanda. A tecnologia consegue dizer-te que tens um pombo-torcaz à mesa. Não consegue convencê-lo a jantar noutro lado.

Fonte: The Verge

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