Os datacenters da União Europeia vão passar a ter um rótulo de eficiência energética, tipo etiqueta de frigorífico mas em versão digital. A Comissão Europeia apresentou hoje o Data Centre Energy Efficiency Package, um pacote que cria um esquema comum de classificação e um rótulo eletrónico para medir quão pesadas estas infraestruturas são para a energia e para a água. A notícia é do The Register e chega depois de anos de adiamentos, precisamente quando a febre da IA está a puxar a procura de computação para níveis absurdos.
O esquema aplica-se a datacenters individuais com necessidade de potência acima de 500 kW. As etiquetas vão basear-se em dados que os operadores já são obrigados a reportar ao abrigo da Diretiva de Eficiência Energética, incluindo consumo de energia e água, reaproveitamento de calor, uso de energia renovável e interação com a rede elétrica. Segundo a Comissão, os primeiros rótulos devem começar a aparecer em 2027. Até lá, o consumo energético da IA continua a crescer sem freio real, como já se vê nos EUA.
O pacote não é só cosmética. Em paralelo, Bruxelas abriu uma consulta pública de 12 semanas sobre a criação de padrões mínimos de desempenho para datacenters novos e existentes, com vista a afastar gradualmente as tecnologias menos eficientes. O objetivo é ter uma proposta legislativa no segundo trimestre de 2027. Falta saber onde se põe a fasquia e que tecnologias ficam automaticamente fora de jogo. Por agora, a Comissão limita-se a admitir que ainda não decidiu o que será exigido.
Segundo o The Register, a história destes rótulos é tudo menos linear. A versão inicial, com uma escala clássica de A a G, foi atrasada após críticas do setor. A agência de rating Moody’s chegou a avisar que uma má classificação podia ter impacto direto no financiamento dos operadores, ao encarecer crédito ou mexer nas garantias exigidas pelos bancos. Pouco depois, surgiram relatos de que Bruxelas estava a aliviar algumas exigências após pressão de operadores e gigantes tecnológicos. Um dos pontos contestados era a obrigação de os certificados de energia limpa usados para compensar emissões terem origem na mesma região do datacenter. A versão revista passou a aceitar certificados de outros projetos renováveis dentro da UE, o que dilui a ligação real entre consumo local e produção limpa.
A tensão é óbvia. A UE quer multiplicar por três a capacidade de computação para IA sem triplicar a pressão sobre redes elétricas, água e faturas de energia. Como sublinhou Teresa Ribera, vice-presidente executiva responsável pela transição limpa, o ponto de partida é a transparência: classificar os grandes datacenters pelo impacto que têm no sistema energético e empurrá-los para modelos mais eficientes, flexíveis, alimentados por energia adicional renovável e com reaproveitamento de calor desperdiçado. Em teoria, datacenters passam de fardo a peça da transição energética. Na prática, isso depende de quão duros serão os padrões mínimos e de quanto espaço continua aberto para contabilidade criativa com créditos verdes.
O movimento europeu também não acontece no vazio. Como lembra o The Register, a Califórnia aprovou esta semana um pacote de leis que obriga a mais transparência no uso de água e eletricidade pelos datacenters e clarifica quem paga a fatura das ligações à rede e da nova infraestrutura de potência. Entre a tentativa da UE de domesticar a fome energética da IA e as respostas locais nos EUA, o recado é simples: a era em que os datacenters cresciam quase invisíveis acabou. O próximo capítulo será ver se os rótulos europeus são uma alavanca real para eficiência ou mais uma folha verde colada por cima de consumos que continuam a disparar.
Fonte: The Register
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