Trump quer participação na OpenAI e fala em fundo de riqueza público
Casa Branca de Trump admite tomar posição accionista em gigantes de IA como a OpenAI. Ideia mistura welfare, industrial policy e um cheirinho de capitalismo de compadrio.
Casa Branca de Trump admite tomar posição accionista em gigantes de IA como a OpenAI. Ideia mistura welfare, industrial policy e um cheirinho de capitalismo de compadrio.
Donald Trump anda a namorar as grandes empresas de IA com uma proposta pouco subtil: o governo dos EUA pode tornar-se accionista e, em troca, parte dos ganhos iria teoricamente para os cidadãos. A OpenAI está no centro da conversa, depois de a CNBC avançar que a administração está a discutir uma participação directa no capital da empresa.
A peça-chave desta engenharia seria um “Public Wealth Fund”, uma espécie de fundo de riqueza pública proposto pela própria OpenAI em documentos recentes. A ideia, no papel, é simples e sedutora: usar acções de empresas de IA para encher o fundo e depois distribuir directamente rendimento pelos cidadãos, permitindo que mais gente participe no lado positivo do crescimento puxado pela IA, independentemente do que tem na conta bancária. Na prática, é um casamento complexo entre regulação, política industrial e interesses privados com bolsos muito fundos.
Em declarações a jornalistas no Air Force One, Trump falou em “conceitos onde pedaços possam ser dados ao público americano, onde o público se torna parceiro das empresas”. Nada de nomes concretos, mas a Bloomberg lembra que Sam Altman anda a defender, desde o início de 2025, que governos tenham participações em grandes empresas de IA. Não é um detalhe: a OpenAI tem feito lobby activo por um modelo de tutela pública que, curiosamente, também legitima a sua escala e posição dominante.
Isto encaixa no padrão recente da Casa Branca de Trump. Em 2025, o governo tomou uma participação de 10% na Intel, uma fabricante de chips em crise, através de apoios já atribuídos. Agora, com OpenAI, Anthropic e xAI (o braço de IA da SpaceX) a prepararem-se para ir para bolsa, abre-se o apetite político para “ficar com uma fatia” antes de a avaliação disparar. À esquerda, Bernie Sanders propõe outra via: um imposto único de 50% cobrado em acções, no momento da entrada em bolsa, para dar ao público um papel directo nas decisões sobre esta tecnologia e garantir que os potenciais biliões gerados pela IA servem para melhorar a vida de todos.
Nem toda a direita rejeita esta lógica. David Sacks, investidor, ex-“czar” de IA e cripto de Trump e hoje co-presidente do conselho presidencial de ciência e tecnologia, admite que a proposta de Sanders ressoa “até à direita”, mas avisa que estes modelos aceleram a fusão entre Estado e grandes empresas que já está em curso. Ou seja, seja com participação directa, seja via impostos pagos em stock, o risco é o mesmo: transformar a regulação da IA num condomínio fechado entre governo federal e meia dúzia de empresas de São Francisco.
Nas redes, há quem vá mais longe. O antigo funcionário da Microsoft Dare Obasanjo sugere que se está a montar o cenário para um futuro resgate público da OpenAI. Para quem vê isto de fora, nomeadamente da Europa, a mensagem é clara: se Washington começar a tratar a OpenAI como “activo estratégico” do Estado, a independência regulatória e comercial de Bruxelas fica mais difícil. E Portugal, que hoje consome IA sobretudo como cliente de APIs americanas, arrisca ficar preso a um oligopólio ainda mais protegido por interesses geopolíticos do que por mérito tecnológico.
Fonte: TechCrunch
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