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Trump abre atalho ambiental para data centers e foguetões da IA

Administração Trump afasta regras anti-chuva ácida e avaliações ambientais para acelerar centros de dados e lançamentos comerciais. A conta fica para quem mora ao lado e, mais tarde, para o clima.

Trump abre atalho ambiental para data centers e foguetões da IA

Em Washington, a febre da IA acabou de ganhar dois atalhos legais. Num só dia, a administração Trump retirou travões ambientais a duas infraestruturas críticas: as centrais que alimentam data centers e os locais de lançamento de foguetões comerciais. A palavra mágica para justificar tudo foi a mesma: “domínio nacional” em inteligência artificial e no espaço.

Primeiro alvo: a chuva ácida. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) puxou os geradores ligados a centros de dados para fora do Acid Rain Program do Clean Air Act, o regime que limita emissões de dióxido de enxofre e óxidos de azoto. A manobra é sem grande subtileza jurídica: como estes grupos geradores alimentam apenas um data center, e não a rede pública, deixam de ser considerados “serviços públicos elétricos”. Resultado, escapam a regras criadas para evitar solos degradados, lagos ácidos e campos agrícolas queimados pelas emissões.

A EPA diz que isto é “bom senso” regulatório em nome da segurança nacional e da prosperidade, porque garantir o domínio dos EUA em IA seria prioridade absoluta. O detalhe incómodo é que quase 60 destas centrais privadas já estão em operação ou construção, muitas em fast track. E as próprias projeções citadas por Bloomberg apontam para centros de dados a consumir cerca de um quinto da eletricidade americana dentro de poucos anos. A matemática é simples: mais consumo intensivo, menos controlo de emissões, mais impacto para quem vive ao lado destas instalações.

Se isto te soa familiar, é porque é a extensão direta da lógica que já tínhamos visto no caso em que a EPA tentou calar vizinhos de data centers em nome da IA. Agora não se trata apenas de processos participativos, é o núcleo duro da legislação anti-poluição que fica de lado. E convém lembrar: os gases que causam chuva ácida também agravam asma e problemas cardiovasculares. Não é um debate académico sobre partes por milhão, é saúde pública.

No mesmo dia, a aviação entrou em cena. A Federal Aviation Administration (FAA) propôs dispensar grande parte das avaliações ambientais federais para novos locais de lançamento, voos e reentradas de foguetões comerciais. A agência prepara-se para um salto de 214 operações deste tipo no ano fiscal atual para mais de 500 na próxima década, empurrado por empresas como SpaceX, Blue Origin, Rocket Lab ou Stoke Space. E as queixas são as do costume: estudos ambientais demorados, projetos parados, investidores impacientes.

Só que os foguetões não são vizinhos discretos. Lançamentos geram ruído intenso, alteram habitats, mudam cursos de água e exigem infraestruturas pesadas em zonas costeiras e rurais. A própria expansão de megaconstelações, como o plano da Amazon para pôr 5.105 satélites em órbita, já levantou dúvidas sobre lixo espacial e impacto no céu noturno, antes sequer de falarmos do que acontece no solo. Se o argumento é competitividade com a China e garantir liderança americana no espaço, o subtexto é que o custo ambiental imediato pode ser empurrado para as comunidades locais, e o custo climático para o resto do planeta.

Da perspetiva europeia, isto não é apenas um drama doméstico americano. A infraestrutura da IA e do “New Space” é global. Dados de empresas europeias acabam em data centers norte-americanos, constelações de satélites privados sobrevoam o nosso céu, e o carbono emitido a partir do Texas ou da Florida aquece o mesmo clima que seca o Alentejo. A UE insiste em avaliações ambientais e licenças demoradas, os EUA abrem túneis de exceção em nome da corrida tecnológica. A diferença não é só de estilo político. É sobre quem aceita pagar já a fatura ambiental da IA, e quem prefere empurrá-la para as próximas décadas.

Fonte: The Next Web

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