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Trabalhadores fartam-se da IA: entusiasmo cai a pique nas empresas

Análise a milhões de avaliações no Glassdoor mostra que a relação dos trabalhadores com a IA azedou em poucos anos. O choque é cultural, não só tecnológico.

Trabalhadores fartam-se da IA: entusiasmo cai a pique nas empresas

O entusiasmo inicial com a IA no trabalho está a esvaziar, e rápido. Segundo uma análise do Glassdoor a avaliações anónimas de empregados nos EUA, a fatia de comentários positivos sobre IA caiu de 81 por cento em 2019 para 43 por cento em meados de 2026. No mesmo período, o peso de comentários negativos subiu para 53 por cento. Não é um detalhe estatístico, é uma mudança de humor em escala industrial.

O padrão mais óbvio é também o mais previsível: quem manda está muito mais contente com a IA do que quem executa. Executivos e cargos de liderança são o grupo mais positivo. Arquitetos de software, que desenham sistemas e estratégias, falam de IA com entusiasmo. Já os engenheiros de software, que lidam com código real, bugs e integrações, são bastante mais cépticos, com 57 por cento dos comentários em tom negativo. A distância entre quem decide adotar ferramentas de IA e quem depois tem de viver com elas é nítida.

Na outra ponta, trabalhadores de sinistros em seguros quase só falam mal. Queixam-se de ferramentas mal implementadas, forçadas pela gestão, que atrapalham mais do que ajudam. Escritores, contabilistas e equipas de apoio ao cliente seguem a mesma linha, numa proporção de quatro críticas por cada comentário positivo. Curiosamente, em profissões que a IA quase não toca, como talhantes ou eletricistas, o tema quase nem aparece. Mas assim que um trabalho atinge um nível moderado de exposição à automação, a IA entra no vocabulário das avaliações, mesmo quando a ameaça real de substituição é discutível.

Os poucos comentários positivos detalhados organizam-se em dois grupos. Uns vêm dos chamados AI winners, empresas que surfam o boom e ganham negócio com IA. Os outros vêm de empregados que elogiam formação, apoio e tempo para aprender a usar novas ferramentas, os tais AI users. Onde há benefício claro para a carreira ou cuidado na implementação, a aceitação sobe. Onde a IA aparece como ordem vinda de cima, pacote fechado, a frustração domina. Não é muito diferente do que já se sente quando a Google despeja respostas de IA em cima da pesquisa sem perguntar a ninguém.

Do lado negativo, o medo de perder o emprego representa 20 por cento das críticas e é o motivo isolado mais frequente. Mas não é o único. Há queixas de vigilância reforçada, mensagens automáticas da direção que soam desumanas, expectativas irrealistas de produtividade e sistemas que pioram o serviço ao cliente. Cerca de 10 por cento dos comentários negativos vêm até de gente que reclama do oposto: empresas demasiado lentas a adotar IA ou sem as ferramentas certas. São pró-IA, mas fartos de ver más decisões e promessas ocas.

O retrato demográfico é ainda mais incômodo. Homens fazem comentários positivos sobre IA em 45 por cento dos casos, mulheres só em 32 por cento. A geração X é a mais receptiva, com 47 por cento de menções positivas. Millennials ficam nos 40 por cento. A geração Z desce para 33 por cento. E o grupo mais desconfiado de todos são as mulheres da geração Z: só 21 por cento dos comentários delas sobre IA são positivos, contra 42 por cento dos homens da mesma geração. Aqui, diz o Glassdoor, a diferença não se explica por setor ou função, o que aponta para algo mais estrutural. Num momento em que as grandes tecnológicas vendem a IA como solução para tudo, este fosso de confiança interno não é só um detalhe de clima laboral, é um risco estratégico que muitos conselhos de administração continuam a ignorar.

Fonte: The Decoder

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