SteamOS ganha FEX e Lepton para levar o Steam além do x86
Valve encaixa em silêncio duas novas camadas de compatibilidade no SteamOS. O alvo não é só o Steam Frame, é um futuro onde o catálogo Steam corre em hardware Arm e APKs Android.
Valve encaixa em silêncio duas novas camadas de compatibilidade no SteamOS. O alvo não é só o Steam Frame, é um futuro onde o catálogo Steam corre em hardware Arm e APKs Android.
Desde o Steam Deck que Proton é a estrela: a camada que faz jogos Windows correrem em Linux sem obrigar ninguém a aprender o que é Wine. Agora a Valve começou a montar outra peça do puzzle no SteamOS. Na calha estão FEX e Lepton, duas camadas discretas, mas com uma ambição clara: deixar o Steam viver fora do mundo x86 e, pelo caminho, engolir parte do universo Android.
FEX é o mais transparente dos dois. É o port, feito pela Valve, do fex-emu, um projecto open source que emula instruções x86 em chips Arm. O que começou em 2018 como brinquedo de cruzamento de arquitecturas é hoje, segundo o próprio site do Fex, um recompilador binário avançado que suporta as extensões modernas do conjunto de instruções x86-64, fala com OpenGL e Vulkan para reduzir overhead gráfico e usa cache de código para cortar quebras de fluidez. Ou seja, a base necessária para fazer um catálogo pensado para CPUs Intel/AMD rodar em processadores Arm sem parecer um emulador de consolas dos anos 90.
A diferença face a Proton é política, não só técnica. Proton nasceu em cima do Wine, um projecto que a Valve apadrinhou, mas não controlava. Com FEX, Pierre-Loup Griffais admitiu ao The Verge que a Valve está a financiar o principal developer, Ryan Houdek, desde que aquilo era só um protótipo. O próprio Houdek agradeceu publicamente essa confiança, sublinhando que o objectivo foi desenhar o Fex para durar e continuar aberto a outros usos. A mensagem da Valve é óbvia, mesmo que não o diga em voz alta: o futuro do Steam em Arm não vai depender da boa vontade de terceiros.
Agora que o FEX entra oficialmente no Steam Frame, o tal headset acima dos 1.000€ que já analisámos de perto em Steam Frame custa mais de 1.000€ e volta a pôr a VR em causa, a Valve já fala sem rodeios em SteamOS para Arm de forma mais geral. Griffais descreve um mundo de dispositivos que hoje vivem num “ecossistema adjacente” mas que, na visão da Valve, não são assim tão diferentes. Tradução: tablets, mini-PCs, portáteis com Arm e afins onde instalar SteamOS seja tão natural como hoje é mandar um Windows OEM borda fora.
O segundo tijolo é Lepton, construído em cima do Waydroid para correr APKs Android em SteamOS através de contentores. No Steam Frame isto não é luxo, é requisito. Uma fatia séria dos jogos VR standalone nasceu para os headsets Quest, que usam Android. Muitos têm versão Windows, mas outros não, e mesmo os que têm nem sempre são tratados com a mesma prioridade. Com Lepton, a Valve ganha uma porta directa para esse catálogo móvel, sem pedir licença à Meta, e empurra os developers a garantirem que o seu APK corre decentemente num ambiente SteamOS em vez de depender de mais uma porta nativa.
Há um risco óbvio nesta estratégia de camadas em cima de camadas: cada abstração nova adiciona latência, potencia bugs estranhos e torna o debugging num inferno. A Valve está basicamente a comprometer-se com um futuro em que o sucesso do Steam depende de engenharia de compatibilidade cada vez mais sofisticada. Mas é isso ou aceitar que PCs Arm, consolas portáteis alternativas e headsets independentes vivam fora da órbita do Steam. E aí a escolha, para uma empresa que vive de ter a maior loja de jogos do planeta, não é bem escolha, é sobrevivência.
Fonte: Ars Technica
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