CIêNCIA

Sonda sul-coreana apanha em foto o embate lunar da SpaceX

O orbitador Danuri fotografou a nova cratera deixada por um estágio do Falcon 9 na Lua. Mais que polémica com Elon Musk, isto é um aviso sobre lixo espacial fora da órbita terrestre.

Sonda sul-coreana apanha em foto o embate lunar da SpaceX

A coreanos não perderam tempo. A KASA, agência espacial da Coreia do Sul, publicou imagens do orbitador Danuri que mostram o local do impacto de um estágio superior de um Falcon 9 da SpaceX na Lua, registado a 6 de agosto. É o antes e depois de um pedaço de foguetão privado a abrir uma nova cicatriz no nosso satélite.

O embate estava previsto para 5 de agosto, depois de se ter calculado a trajetória deste estágio usado em 2025 para enviar a Blue Ghost Mission 1 da Firefly Aerospace e a sonda Resilience da ispace para a Lua. Ao contrário do que acontece na maioria das missões Falcon 9, em que o segundo estágio acaba por arder na atmosfera terrestre, aqui a órbita de transferência lunar tirou essa opção de cima da mesa. A SpaceX admitiu num comunicado que “impactos como este são raros, mas podem acontecer” e que uma manobra de eliminação controlada “nem sempre é possível” nestas órbitas.

Há ironia no calendário. Danuri foi lançado há quatro anos num Falcon 9 da própria SpaceX. A missão, que era para durar um ano, já foi prolongada duas vezes e está agora planeada para terminar em 2028 com um impacto deliberado da sonda na superfície lunar. Ou seja, a mesma semana em que Danuri fotografa o lixo alheio também confirma que as agências espaciais continuam a usar a Lua como alvo de testes e fim de linha para hardware.

Jared Isaacman, o administrador da NASA, apressou-se a relativizar, lembrando que a agência americana já fez o mesmo no passado em nome da ciência, ao provocar sismos lunares com impactos controlados. E puxou de estatísticas: meteoroides atingem a Lua constantemente, com eventos energéticos semelhantes a este a ocorrer aproximadamente a cada seis dias. É verdade. Mas essa comparação é cómoda. Meteoroides não têm dono, nem conferências de imprensa, nem investidores em pânico quando leem a palavra “cratera” ao lado de “SpaceX” depois de um IPO recente.

O ponto mais incómodo é outro. Se na órbita terrestre já começamos a falar em tráfego insustentável e necessidade de regras claras, na Lua ainda é o faroeste. Quando escrevemos que um Falcon 9 ia embater na Lua e expunha o lixo da nova corrida espacial, o risco era exatamente este: a normalização de impactos “porque sempre se fez assim”. Sem acordos sobre corredores orbitais lunares, zonas de exclusão e, sim, possíveis “aterros” designados, vamos repetir em redor da Lua o que já fizemos em redor da Terra, só que mais longe dos olhos e da regulação.

Empresas como a europeia Neuraspace andam a propor modelos de gestão de tráfego espacial, incluindo a ideia de zonas específicas para despejo de detritos. Para já, isso é conversa quase académica, enquanto o negócio real é lançar mais satélites e missões comerciais. As novas imagens de Danuri não são apenas bonitas ou curiosas, são documentação de uma cultura. Se a corrida lunar voltar a acelerar sem regras, a discussão sobre quem dá nome à cratera vai interessar menos do que a pergunta óbvia: quanto lixo vamos aceitar à porta de casa antes de chamar isto de problema político, e não só técnico.

Fonte: The Register

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