CIêNCIA

Falcon 9 vai embater na Lua e expõe o lixo da nova corrida espacial

Um estágio de um Falcon 9 da SpaceX vai abrir um novo buraco na Lua. O problema não é este impacto, é o que ele anuncia para futuras bases lunares habitadas.

Falcon 9 vai embater na Lua e expõe o lixo da nova corrida espacial

Um estágio superior de um Falcon 9 da SpaceX, abandonado no espaço há ano e meio, deve embater na Lua esta quarta-feira. São 4 toneladas de metal a viajar a cerca de 8.700 km/h, sem atmosfera para travar, a libertar energia equivalente a 3 toneladas de TNT. O resultado provável: uma cratera com até 27 metros de diâmetro e 5 metros de profundidade, perto da cratera Einstein, na orla oeste da face visível.

Para quem estiver nas Américas e tiver um bom telescópio, o impacto deverá ser visível durante alguns minutos como pluma de detritos a erguer-se do solo lunar. Não é a primeira vez que isto acontece. Em 2022, um Long March 3C chinês deixou uma marca de 29 metros na superfície. A diferença é que agora a cadência de missões à Lua está a subir e o que antes era quase anedótico começa a parecer tendência.

Este Falcon 9 levou dois módulos lunares privados até à vizinhança da Lua e foi deixado à deriva por falta de combustível para regressar ou estabilizar a órbita. É aqui que a “romantização” da corrida espacial colide com engenharia básica: sem regras claras para o destino final de estágios de foguetões, a Lua arrisca-se a tornar-se o equivalente orbital de um parque de sucata. Não é só a estética do céu noturno que está em causa, é a segurança de qualquer futura infraestrutura lunar.

Bill Gray, criador do Project Pluto, foi quem calculou a trajetória deste impacto e coassinou um estudo recente em pré-publicação que usa o caso como ensaio geral. O choque é descrito como oportunidade para testar sistemas de deteção de flashes, correlacionar dados sísmicos e mapear riscos “multimodais” para estruturas e astronautas. Traduzindo: perceber não só o risco imediato de ser atingido por estilhaços ou cegado por um clarão, mas também o risco indireto, desde nuvens de material ejetado que podem bater em naves em órbita até interferências longas na operação de futuros habitats.

Convém lembrar que o maior inimigo de qualquer base lunar nem são estes pedaços de metal, é o espaço em si. Micrometeoritos caem regularmente, como já se viu em missões recentes, e a radiação continua implacável. A diferença é que meteoritos são inevitáveis, lixo de foguetões não é. Se a NASA com o programa Artemis, a China e outros países querem mesmo montar bases com presença humana prolongada ao longo da próxima década, então não podem tratar estágios mortos como se desaparecessem por magia no vácuo.

Para já, esta colisão é ciência barata: uso um problema criado por nós como laboratório natural. Mas é também aviso em letras bem visíveis. A mesma indústria que celebra cada lançamento não está a ser obrigada a planear com rigor o “fim de vida” do hardware. Na órbita terrestre já se percebeu onde isso leva. Exportar o mesmo desleixo para a Lua não é progresso, é reciclar os erros mais perto da próxima casa.

Fonte: Wired

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