Soberania digital é bonita no papel, mas quase ninguém consegue sair
Novo estudo global mostra que a maioria das grandes organizações já desistiu da ideia de independência tecnológica total. Fala-se em soberania, pratica-se dependência gerível.
Novo estudo global mostra que a maioria das grandes organizações já desistiu da ideia de independência tecnológica total. Fala-se em soberania, pratica-se dependência gerível.
Depois de anos a ouvir governos europeus e fornecedores cloud a vender “soberania digital”, a realidade bateu à porta: a maior parte das grandes organizações já concluiu que independência tecnológica total é uma ficção cara.
Os dados vêm de um estudo da Capgemini, que falou com 1.300 executivos de empresas com mais de mil milhões de dólares de faturação e departamentos públicos com orçamentos acima desse valor. Resultado: 59 por cento consideram que soberania digital completa é irrealista. Em vez disso, cerca de dois terços abraçam o conceito mais modesto de “interdependência resiliente”. Traduzindo: continuamos presos a fornecedores externos, mas tentamos que essa dependência não possa matar o negócio com um único corte de cabo.
O problema é que o cabo já está bem enrolado. O Digital Sovereignty Index da mesma consultora, baseado em 866 organizações, conclui que 86 por cento têm forte exposição a cadeias de fornecimento estrangeiras ou externas. Só 14 por cento dizem ter visibilidade ponta-a-ponta das dependências tecnológicas. Não é só saber onde estão os dados, é perceber que CPU estrangeiro alimenta o “cloud soberano”, que software de terceiros está enterrado no ERP e que API externa pode desligar meio serviço com uma mudança de termos de uso.
Quando chega a hora de sair, a coisa complica. No estudo, 36 por cento admitem que afastar-se de um fornecedor tecnológico crítico levaria mais de um ano. Pior, 10 por cento dizem que nem sequer têm alternativa viável. Aqui a conversa sobre “soberania” transforma-se em gestão de danos: quanta independência é suficiente para dormir descansado sem ter de reconstruir toda a pilha tecnológica em casa. Na Europa, esse pragmatismo é ainda mais visível: três quartos dos respondentes europeus definem soberania em termos de resiliência e interdependência, bem alinhado com a narrativa de Bruxelas que vimos em iniciativas como o browser da Ecosia focado em soberania digital.
Apesar do realismo, o tema não saiu da mesa do conselho de administração: 93 por cento dos inquiridos dizem que a soberania digital já foi discutida ao nível de board, e 44 por cento colocam o tema no topo das prioridades. Não é conversa de café, é linha de risco nos relatórios. Mas entre legislar e re-arquitetar sistemas legados há um abismo. Basta olhar para os “clouds soberanos” europeus que continuam a correr em processadores e stacks controlados fora da UE para perceber o desfasamento entre o discurso político e a engenharia possível.
Entretanto, a IA adicionou mais uma camada de dependência. Três quartos das organizações apontam a IA como foco principal dos esforços de soberania, à frente de infraestrutura cloud, cibersegurança, dados e software. A mensagem é clara: primeiro medo é ficar preso aos modelos e APIs de meia dúzia de gigantes, só depois vêm os datacenters. Para quem gere sistemas em Portugal, isto traduz-se em menos fantasia de “cloud 100 por cento nacional” e mais trabalho aborrecido: contratos com cláusulas de saída realistas, arquiteturas portáveis e auditoria séria das dependências. Menos slogan, mais diagrama de rede.
Fonte: The Register
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