CIêNCIA

Skyroot, SpaceX e o adeus silencioso ao foguetão Pegasus

Uma startup indiana prepara o primeiro foguetão privado em órbita, a SpaceX passa a marca dos mil Merlin e a NASA reforma discretamente um clássico com asas.

Skyroot, SpaceX e o adeus silencioso ao foguetão Pegasus

Enquanto meio mundo anda distraído com mega-foguetões e Marte em modo PowerPoint, a notícia mais interessante desta semana é bem mais modesta: um foguete lançado debaixo da asa de um avião fez a sua última viagem. E na mesma semana em que a Índia se prepara para pôr o seu primeiro foguetão privado em órbita e a SpaceX entra na era dos motores aos milhares.

Comecemos pelo fim. O Pegasus XL, foguetão da Northrop Grumman lançado do ventre de um L-1011 modificado, cumpriu o que tudo indica ser o seu último voo. Levou para órbita o satélite Link da Katalyst Space Technologies, uma missão experimental para reboost do telescópio Swift da NASA, que já não consegue contrariar o arrasto atmosférico e devia reformar-se ainda este ano. Lançar foguetões a partir de aviões parecia o futuro nos anos 90, mas foi esmagado pela matemática simples: quando tens SpaceX e Rocket Lab a lançar mais barato e com cadência, o exotismo deixa de compensar.

O Link vai tentar elevar a órbita do Swift e prolongar a sua vida, algo que o telescópio nem sequer tinha previsto em design. Se correr bem, abre-se uma porta interessante para a manutenção orbital de satélites “condenados”. Para uma Europa que começa a falar a sério em debris e sustentabilidade orbital, esta abordagem é mais pragmática do que muitos powerpoints sobre rebocadores espaciais autónomos. É tecnologia de nicho, mas mostra que há vida para lá da obsessão com mega-constelações.

Do outro lado do mapa, na Índia, a Skyroot Aerospace marcou a janela de lançamento do Vikram-1 para entre 12 de julho e 4 de agosto. Vai ser a primeira tentativa de uma empresa privada indiana de colocar carga em órbita. O foguetão usa três andares a combustível sólido e um quarto andar a líquido, pensado para afinar a inserção orbital de quase meia tonelada em órbita baixa. A startup já captou cerca de 160 milhões de dólares, incluindo uma ronda recente de 60 milhões que a empurrou para o estatuto de “unicórnio”. Não é só vaidade: é um sinal claro de que o mercado de lançadores pequenos continua vivo, apesar da sombra longa da SpaceX e de concorrentes como a Rocket Lab.

Falando em SpaceX, a empresa atingiu um marco que há dez anos soaria ridículo: mil motores Merlin produzidos. O mesmo Merlin 1D que se vê nos testes em McGregor é o cavalo de trabalho do Falcon 9 e do Falcon Heavy, o mesmo que permite aterragens de rotina e reutilização quase em modo linha de montagem. Somando a isto o plano da empresa para gasodutos dedicados de metano para o Starship, como já analisámos no caso do Starpipe, fica claro que Elon Musk não está a brincar à escala industrial. A SpaceX já não é “apenas” um operador de foguetões, é uma infraestrutura pesada a servir o próprio ritmo de lançamento.

No meio disto, a Europa vai andando a passo de burocrata. Há boas notícias, como a entrega pela NASA dos motores de travagem para o rover Rosalind Franklin da ESA, com lançamento apontado a 2028, após anos de atrasos mais políticos do que técnicos. Mas quando comparamos a cadência de lançamentos europeus, a demora do Ariane 6 e o peso que a SpaceX tem até em missões científicas europeias, a paisagem é óbvia. O espaço já não é corrida de dois blocos, é uma rede de fornecedores, startups e gigantes privados. Quem ficar preso a ciclos de desenvolvimento de década arrisca-se a ser o próximo Pegasus: elegante, histórico, e irrelevante para o mercado.

Fonte: Ars Technica

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