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Relato: acordo com a Intel poupou a Apple a tarifas de chips nos EUA

WSJ descreve como Tim Cook negociou em Washington para evitar tarifas de 100% em semicondutores, abrindo a porta a fabrico de chips da Apple em fábricas da Intel nos EUA.

Relato: acordo com a Intel poupou a Apple a tarifas de chips nos EUA

No verão passado, a Apple esteve perto de levar com uma tarifa de 100% sobre todos os semicondutores que importa para os EUA. iPhone, Mac, AirPods, tudo o que leva silício dentro podia ter ficado bem mais caro para o cliente americano. Segundo um novo relato do Wall Street Journal, Tim Cook saiu de Washington com uma isenção quase total, em troca de duas promessas: mais investimento em solo americano e um lugar à mesa para a Intel.

O enquadramento político é simples e pouco subtil. A administração Trump queria pressionar as importações de chips, sobretudo vindos da Ásia, e ao mesmo tempo mostrar serviço na reindustrialização dos EUA. A Apple, altamente dependente de TSMC em Taiwan para os seus SoC, aparecia como alvo óbvio. Pelo relato citado pelo 9to5Mac, nas reuniões com Cook, tanto Donald Trump como o secretário do Comércio, Howard Lutnick, empurraram insistentemente o nome de uma empresa: Intel, o histórico fabricante americano que tem lutado para recuperar relevância na era ARM.

O acordo, que na altura foi vendido como compromisso de “centenas de milhares de milhões de dólares” de investimento nos EUA, tinha um subtexto que só agora se começa a desenhar em público. Parte desse pacote passaria por a Apple encomendar à Intel a produção de alguns chips para Mac e iPhone, recorrendo às novas fábricas de contrato que a empresa está a montar. Quase um ano depois, Trump apareceu na rede Truth Social a anunciar, em tom de vitória pessoal, que a Apple ia usar chips feitos pela Intel em alguns produtos, puxando as ações da Intel para máximos históricos de negociação.

Para quem olha de fora da bolha Washington–Silicon Valley, isto encaixa num padrão. A Apple tem multiplicado compromissos de produção local e acordos de longo prazo com fornecedores, de que é exemplo o acordo de chips com a Broadcom até 2031. Há cálculo económico nisto, mas também defesa contra riscos geopolíticos e tarifários. Quando a empresa aceita pôr parte do seu roadmap de chips nas mãos de uma Intel em recuperação, não é só engenharia, é política industrial pura.

Para o utilizador português, a tarifa americana pode parecer distante. E é. Os preços na Europa não foram mexidos por causa destas ameaças específicas, até porque a UE tem a sua própria agenda de chips e subsídios. Mas há um efeito indireto: a Apple gasta tempo e dinheiro a gerir riscos políticos, em vez de só optimizar tecnologia. E quando a cadeia de fornecimento se reorganiza por razões patrióticas, dificilmente sai mais barata a médio prazo, seja para quem compra em dólares ou em euros.

No fim, a Apple escapou às tarifas, mas não às subidas de preço. As últimas gerações de Mac e iPad já chegaram mais caras, empurradas por custos de memória e outras matérias-primas. As jogadas com Intel, Broadcom ou até os testes a memória DRAM chinesa da CXMT que contámos aqui mostram uma coisa: a era em que os chips eram apenas um problema de engenharia acabou. Agora são também moeda de troca diplomática, e quem compra tecnologia em Portugal paga parte dessa conta, mesmo longe de Washington.

Fonte: 9to5Mac

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